A revista A Vida era uma publicação mensal de Filosofa libertária que
existiu no Brasil de Novembro de 1914 a Maio de 1915. Saíram 7 número: da
revista e o grupo que a produzia se dispersou logo depois. Apesar da existência
efêmera, a sua importância foi significativa.
Esta revista pode ser considerada como uma das primeiras no Brasil a se
preocupar com a formação ideológica e com a consciencialização da classe
trabalhadora. Os editores desta publicação também se preocupavam com a
organização concreta da classe operária e incentivavam as suas lutas do dia a
dia os seus sindicatos.
Foi uma revista não-sectária, aberta, chegando a publicar obras escritas
por religiosos que atacavam o sindicalismo revolucionário. Nela aparecem
artigos contra a guerra e o imperialismo, sobre o internacionalismo, sobre a
questão da mulher, preocupa-se com a história dos primeiros núcleos de
trabalhadores organizados no país e discute com o positivismo, através de
interessante polêmica com Teixeira Mendes, um dos "papas" desta
filosofia no Brasil.
A revista A Vida também canalizou energias para a
reflexão sobre a educação e esta preocupação educativa perpassa grande parte de
artigos e seções da revista. A seção que aparece a partir do segundo exemplar
denominada Leitura que recomendamos - O que todos devem ler é
um bom exemplo da preocupação da revista com a formação intelectual dos
militantes anarquistas.
Nesta seção aparecem referências a
vários livros, folhetos e jornais libertários, livros como os de Kropotkin,
Jean Grave, Neno Vasco, Eliseu Reclus, Sébastien Faure e vários outros autores
importantes. É interessante notar que na lista de obras relacionadas como
recomendadas aparecemO Capital de Karl Marx e Assim Falava
Zarathustra de Nietzsche, o que vem demonstrar a abertura intelectual
destes libertários brasileiros do início do século.
Nesta mesma seção aparece também a referência aos livros do educador libertário
português Adolfo Lima. Os exemplares citados são: O contracto do
trabalho; O ensino de História (um volume de 63
páginas); O teatro na escola (um volume de 32 páginas) e Educação
e Ensino(Educação integral). Estes livros divulgaram várias noções sobre a
educação libertária e devem ter sido lidos; pelo menos, por uma dúzia, de
anarquistas no início do século.
Estes brasileiros que, orientados pela Filosofia socialista revolucionária,
refletiram sobre a realidade brasileira e propuseram soluções baseadas nos
interesses dos trabalhadores podem ser considerados como uns dos primeiros
intelectuais orgânicos dos subalternos do Brasil.
A revista mensal A Vida apresentou três artigos escritos
especialmente sobre o tema educação. São os seguintes: "As escolas e sua
influência social - o ensino oficial e o ensino racionalista" (PENTEADO,
João, dez. 1914); "A instrução e o Estado" (LIMA, Efren, Jan. 1915);
"A escola - prelúdio da caserna" (PINHO, Adelino de. , mar. 1915).
Existe também uma série de textos de José Oiticica denominada O
desperdício da energia feminina onde, tratando da questão da mulher na
sociedade capitalista, o autor escreve sobre o papel das mães na educação dos
seus filhos.
O artigo de João Penteado mostra a importância da escola para manutenção ou
mudança da hegemonia da ideologia burguesa. A classe dominante tem claro que é
nas escolas "que reside o segredo da força mantenedora dos preconceitos
patrióticos, da convenções sociais, das superstições e dos dogmas
religiosos" (PENTEADO, J. A Vida, n. ° 2, dez. 1914, p. 8). Por isso, o
Estado e a Igreja disputam o controle da instrução do povo e têm o objetivo de
formar mentalidades adaptadas aos seus interesses de classe. É nas escolas
oficiais do Estado e nas escolas confessionais que se amoldam e se mutilam as
consciências das classes populares. Nestas escolas se cultiva e se cultua a
atrofia da razão e são infiltradas nas crianças das classes subalternas as
mentiras patrióticas e religiosas.
A burguesia, através do Estado capitalista, cria portanto a subordinação
intelectual no sentido desenvolvido por António Gramsci. Subordinação
intelectual é um conceito utilizado por este pensador para apresentar a sua
visão da dimensão ideológica da dominação de classe na sociedade capitalista.
No pensamento gramsciano a dominação do
capital sobre o trabalho, que resulta na exploração das classes subalternas, é
o momento da dominação econômica. Existe também uma dominação
político-ideológica que se faz pela repressão (exército, policia, prisão, etc.)
e/ou pela dominação ideológica (consenso social que é expresso pela aceitação,
pela maioria da população, da direção que a classe dominante dá à sociedade).
Os socialistas libertários em geral percebem esta importante faceta da
dominação burguesa. É através das escolas oficias estatais e das escolas
confessionais que se generaliza a dominação ideológica capitalista.
Para Gramsci, a dominação dos subalternos acontece por dois fatores essenciais:
o primeiro é a interiorização da ideologia dominante pelas classes subalternas
e o segundo é a ausência de uma visão de mundo coerente e homogênea por parte
desta mesma classe. Na teorização e na prática anarquista eles enfrentam estes
dois problemas. Para solucionar o primeiro, que explica a participação massiva
dos trabalhadores nos combates da 1' Guerra Mundial, os
libertários propõem a denúncia da ideologia burguesa, veiculada através
das escolas do Estado e da Igreja e implementam a criação das suas escolas
anarquistas e/ou racionais e/ou modernas, que apesar de modestas, travarão o
combate para a criação de uma ideologia proletária, que proporcionará à classe
subalterna uma visão de mundo coerente e homogênea que desencadeará a luta pela
criação e desenvolvimento da sociedade acrata.
A burguesia procura monopolizar a instrução popular para evitar "o
progresso das idéias novas que levam os trabalhadores à revolta, à luta, à
guerra contra todas as explorações do homem pela homem, contra todas as
injustiças, contra todos os privilégios sociais." (PENTEADO;
idem, ibidem).
A classe dos capitalistas, por meio da escola oficial estatal, procura,
através de um premeditado e constante trabalho, inocular na juventude popular a
sua ideologia. O autor exemplifica citando a 1° Guerra Mundial, em que a escola
incentiva o patriotismo e o militarismo preparando a juventude para aceitar
naturalmente o derramamento de sangue, o saque e a devastação de cidades que
esta guerra trouxe.
João Penteado, sintonizado nos ideais libertários, propõe como
alternativa à escola oficial estatal a criação de escolas racionais. Estas
escolas "excluem de seu programa todos os preconceitos patrióticos
e religiosos, tendo sempre em mira, antes de tudo, a educação e a instrução da
infância de acordo com a razão e com a verdade das cousas que constituem o
objetivo principal de nossa vida e a razão de nossos atos, já fazendo
despertar-lhe todas as aptidões naturalmente manifestadas para o trabalho
produtivo, para a ciência e para as artes, já encaminhando-a de modo humano e
racional para a conquista de todas as felicidades, descortinando para as suas
vistas horizontes novos, fulgurantes, iluminados." (PENTEADO,
idem, p.9).
A proposta libertária de João Penteado realça a importância de trabalhar
no educando as suas aptidões naturais, deixando-as fluírem com liberdade para
que o jovem possa aproveitar ao máximo as suas potencialidades. Tal proposta
visa à formação de um ser humano que atue e crie nas várias áreas da atividade
social, um homem que seja capaz de desenvolver uma atividade produtiva
concreta, que produza ciência com interesse e que também atue no campo das
artes.
Esta proposta de educação segue o ideário libertário que não acredita na
possibilidade da transformação revolucionária da escola estatal ou
confessional. Portanto, os anarquistas procuram criar novas escolas que
trabalhem baseadas no ideal racional-libertário. No texto de João Penteado, ele
faz referência à criação em São Paulo de uma escola racionalista:
"É este, pois, se bem que modestamente, o trabalho que temos
iniciado em Sãa Paulo e que precisa, de certo, da decidida boa vontade de todas
as consciências livres, da cooperação de todos aqueles que sentem a verdadeira
e urgente Necessidade de se opor uma barreira à tanta degenerescência moral que
se observa nos espíritos de nossos contemporâneos."(PENTEADO, idem,
ibidem).
Outra referência a uma iniciativa de criação de uma escola racionalista,
no início do século, é o anúncio que aparece na revista libertária A Vida de
Março de 1915:
"Escola Nova Acaba de instalar-se em São Paulo, a rua Alegria , 26
(sobrado), um instituto de instrução e educação, para meninos e meninas, e que
se serve dos métodos racionais e científicos da pedagogia moderna.
As matérias de ensino são ministradas em três cursos especiais,
primário, médio e superior.
Curso primário:
português, aritmética, geografia, botânica, zoologia, caligrafia e desenho.
Curso médio: português aritmética, geografia, mineralogia, botânica,
zoologia, física, química, geometria, história universal, caligrafia, desenho.
Curso superior: aritmética, álgebra, botânica, zoologia, mineralogia,
física, química, história universal, geologia, astronomia, desenho, português,
italiano, espanhol, etc.
Os cursos primário e médio acham-se a carga dos " educacionistas.
Florentino de Carvalho e Antonia Soares. O curso superior acha-se sob a direção
de intelectuais de reconhecida competência, figurando entre eles o professor
Saturnino Barbosa, Drs. Roberto Feijó, Passos Cunha, A. de Almeida Reqo,
Alfredo Júnior, os quais lecionam matérias de sua respectiva especialidade.
Como se vê, a Escola Nova é uma bela iniciativa, que merece todo o apoio
dos amigos da educação racionalista" (A Vida, no. 5, 31/1/1915,
p.79-80).
É importante realçar que, em praticamente todas as escolas fundadas por
anarquistas no Brasil do início de século, eles implantaram a propostas de
Ferrer de coeducação de ambos os sexos. Como para o educador espanhol, os
libertários do Brasil não aceitavam de modo algum uma educação em separado para
as mulheres.
Podemos também perceber, pelo anúncio da Escola Nova da rua Alegrai, que
os cursos oferecidos por esta escola apresentavam um amplo leque de
disciplinas. No curso superior, a palavra etc demonstra bem a predisposição dos
anarquistas a se abrir para o novo, vontade de acolher novas sugestões e de
oferecer novas matérias, abrindo assim o programa para uma permanente
reformulação.
Existem várias referências de criação de escolas racionais no Brasil de
início do século. Estas escolas, apesar das grandes dificuldades, sobreviveram
durante anos e eram, na visão socialista libertária, um dos principais recursos
se atingir a sociedade acrata.
O texto de Efren Lima, que aparece na revista A Vida no. 3, de 31 / 1 /
1915, trata de vários temas relacionados com a educação do ser humano.
O autor afirma como é maléfico para o
ensino de sua época a dependência do Estado. Para a educação é de fundamental
importância existir a liberdade. Para E. Lima, o Estado controla o ensino
porque percebe a sua importância para a submissão das massas à autoridade da burguesia.
É o Estado que nomeia os professores e impõe às escolas públicas primárias e
superiores.
"uns programas instrutivos, cuidadosamente compilados pelos governos e
consoantes com os seus interesses econômicos, políticos, partidários etc." (Lima,
Efren, A Vida, 31 / 1 / 1915, p. 6).
O educador libertário do início do século XX demonstra clara noção da
importância do Estado capitalista na organização da dominação burguesa. O
critério de recrutamento de professores e de programas é de vital importância
para a consolidação da dominação ideológica burguesa. A criação do consenso
social, que consiste na aceitação acrítica da dominação e da direção que a
classe burguesa dá à sociedade, passa pelo controle do aparelho educacional e
da instrução popular.
O aumento de escolas para o povo, patrocinado pelo Estado capitalista no início
do século XX, tem a preocupação de ensinar aos alunos "crenças
religiosas, amor pelas pátrias, respeito às autoridades, obediência às leis,
proteção à propriedade privada, e milhares de monstruosidades análogas" (LIMA,
idem, ibidem). Esta escola procura e consegue passar para os subalternos a
ideologia que interessa à burguesia. criando a hegemonia desta.
Hegemonia, que na concepção gramisciana, é o conjunto das funções de domínio e direção,
exercido por uma classe social dominante no decurso de um período histórico,
sobre outra classe social e até mesmo sobre o conjunto das classes da
sociedade. A hegemonia tem duas funções: uma de domínio e outra de direção
intelectual e moral. O domínio supõe o acesso ao poder e o uso da força,
compreendendo a função coercitiva; a direção intelectual e moral se faz através
de persuasão, promove a adesão por meios ideológicos, constituindo a função
propriamente hegemônica.
Efren Lima reflete sobre as bibliotecas da escola oficial estatal e sobre os
escritores que "elaboram obras pueris, concordes com as
tolerâncias do meio, que acham bom como é, e ao qual nunca ousariam tentar uma
depuração" (LIMA, idem, ibidem). Nestas bibliotecas existem obras
de escritores, que na verdade colaboram para anestesiar e alienar os
trabalhadores. Estes escritores são os verdadeiros intelectuais orgânicos da
classe burguesa e cumprem eficientemente o seu papel em troca de boas
remunerações.
Tais escritores, intelectuais orgânicos da classe dominante, têm a função de
divulgar os seus princípios no senso comum, ofuscando ainda mais o núcleo de
bom senso dos subalternos. Em contrapartida, temos os intelectuais orgânicos
das classes subalternas que difundem a concepção do mundo revolucionário entre
as massas exploradas e dominadas. Podemos considerar os editores da revista A
Vida e os organizadores das escolas racionais como sendo intelectuais orgânicos
dos trabalhadores.
A experiência recente da história do Brasil nos mostra o quanto é importante,
para o despertar da consciência de classe, a leitura de periódicos
progressistas, a luta concreta do dia a dia e a participação em cursos livres
patrocinados por entidades ligadas aos trabalhadores. A fornada de líderes
ligados aos interesses populares, que década de 80 produziu, reforça estas
afirmações. O aparecimento de lideres operários no Brasil, transcendem a visão
simplista do senso comum e se transformam em intelectuais orgânicos das classes
subalternas, se deu prioritariamente através da luta e da formação intelectual
alternativa.
Para E. Lima, um grande atraso para o homem é a lei do hábito. Um ser habituado
é ser escravizado. Para o ser humano livrar-se do hábito que corresponde à
quietude, ao aniquilamento do libertar-se, é de grande importância a educação
racional. O autor rende homenagem à grande referência dos libertários da época,
que é Francisco Ferrer y Guardia, e faz uma bonita convocatória aos educadores
anarquistas:
"Irmãos nossos, fugi, fugi do hábito, caminhai para a liberdade, para a
mutação, para a perfeição inacabável. Jamais até hoje um segundo homem
compreendeu melhor do que Ferrer, a necessidade de um ensino racional, novo e
que afastando-se do dogmatismo pedagógico presente, ministrasse uma educação realmente
impecável, e que evoluisse a par com o desenvolvimento das ciências. Ao mártir
excelso coube a gloria de realizar este ideal tão puro, e os homens
filantrópicos cumpre o dever de amparar a obra iniciada, consolida-la e
multiplica-la infinitamente." (LIMA, idem, p. 7).
Outra interessante reflexão do autor está relacionada à importância da educação
e transformação das relações sociais e econômicas para a consolidação de uma
sociedade fraterna, igualitária e democrática. Para ele o indivíduo socializado
é o resultado de três fatores: a hereditariedade, a educação e o meio.
Nesse sentido, o homem vem ao mundo com predisposições. Estas podem ser
transformadas e aperfeiçoadas pela atuação da educação e do meio. E. Lima
propõe a proliferação de escolas racionais e no meio social o seu saneamento,
que corresponde ao término da opressão e da desigualdade. Ou seja, a realização
de uma revolução social de cunho libertário.
O autor, para complementar o raciocínio anterior, escreve as esclarecedoras
palavras:
"A energia primordial adquirida por via biológica poderá ser apaziguada ou
extinta, por via de adaptações deformantes e posteriores. Portanto um esforço
coletivo de todas as pessoas das várias nações das diversa raças terrestres, e
tendente a tornar a educação dos novos indivíduos a primeira preocupação da
humanidade, colocando-a em nível superior e purificando zelosamente o meio
racial, deveria constituir o horizonte para o qual seriam dirigidos os valores
máximas das nossos trabalhos " (LIMA, idem, p. 6).
O terceiro artigo, o de Adelino de Pinho, educador que desenvolveu várias
iniciativas de criação e manutenção de escolas racionais, reflete sobre
importantes aspectos relacionados com o ensino da sua época.
A conjuntura da 1ª Guerra Mundial também marcou as reflexões de Adelino e o
título de seu artigo é sintomático A escola, o preludio da caserna.
O autor percebe a relação estreita entre a escola primária e a formação das
crianças com a preparação e o desenrolar da 1° Guerra Mundial, que tantos
prejuízos trouxe para a humanidade.
A escola primária trabalha para a formação e manutenção da ideologia burguesa,
que neste período acentua a sua face militarista. Adelino afirma que a escola
primária confessional ou governamental tem como objetivo lançar
"mão dos cérebros infantis e modela-los a seu bel prazer, enchendo-os
de formulas metafísicas e abarrotando-os de palavrões estragados, como pátria,
fronteira, estrangeiro e inimigos, acostumando os ternos infantes a desconfiar
dos outros povos e a precaver-se contra eles, o que leva os do país estranho a
fazer o mesmo e vice-versa." (PINHO, Adelino de. A Vida, mar.
1915, pp. 75-6).
Este tipo de formação leva à desconfiança entre os povos e às guerras, o que
destrói a necessária solidariedade entre os trabalhadores dos vários países.
Esta visão belicista é contrária a um dos mais caros princípios do socialismo
libertário que é o internacionalismo.
O que Adelino de Pinho constata com tristeza é a eficiência da escola oficial
estatal ou confessional. As novas gerações da Europa, saídas destas escolas,
assimilaram totalmente a ideologia burguesa e militarista e partiram céleres
para a sangrenta 1ª Guerra Mundial.
Como os demais autores libertário, Adelino reflete sobre o papel do Estado na
educação. Afirma que a burguesia, percebendo a decadência da influência da
Igreja sobre as classes populares e a sua necessidade de mão-de-obra mais
qualificada, passa a investir na criação de escolas. O Estado burguês procura
investir no ensino com o objetivo de dominação hegemônica e também com o
objetivo de dar o mínimo de qualificação para a mão-de-obra proletária, que vai
trabalhar nas máquinas e nas indústrias dos capitalistas. Esta necessidade
aumenta na proporção em que a sociedade de base industrial se consolida e se
espalha pelo mundo.
Portanto para a burguesia, a educação tem um papel instrumental importantíssimo
para a sua dominação sobre os trabalhadores. É por isso que "esses agentes
governamentais - o.rs professores - que são obrigado a cingir-se ao programa e
não ultrapassa-lo , nem quase criticá-lo" (PINHO, idem, p. 76) são
selecionados pelo Estado e seguem um programa preestabelecido pelo mesmo. O
Estado só deixa ensinar o que lhe é útil para a consolidação de sua hegemonia.
Todos os Estados, segundo o autor, ouviram a frase de Leibnitz: "Fazei-me
senhor do ensino e eu me encarrego de transformar a face do mundo".
Adelino de Pinho escreve que
"... todo este carinho revelado pelos mandões a respeito da instrução
do povo, não é sincero, nem honesto, nem desinteressado, mas somente uma
manobra habilíssima para que se apoderem dos filhos dos trabalhadores e
prepara-os, como já acontece aos pais, amolgando-lhes os cérebros e
deprimindo-lhes o caráter, a serem obedientes, humildes, submissos e
respeitadores do status quo, bons manequins, dentro da oficina, quando ha
necessidade de produção, e bons manequins, no campo de batalha, guando os
stocks de mercadorias abundam nos armazéns e se faz mister conquistar mercados
à força de punho, a ferro e fogo, para dar saída aos produtos
invendíveis." (PINHO, idem, p. 77).
Para as classes populares coloca-se um clilema: ser carne da oficina ou ser
carne de canhão para a burguesia. Dilema que pode ser resolvido com uma
terceira alternativa que é a abertura e manutenção de escolas racionais, onde
as mentes e os corpos infantis se desenvolvam livres de toda pressão e
imposição. O autor compreendendo a importância que as primeiras impressões
exercem no ulterior desenvolvimento individual e coletivo das pessoas, propõe
como um dos meios mais eficazes para conseguirmos "... um mundo
melhor onde todos gozem a alegria de viver, satisfeitos da vida e libertos da
fome, da opressão e da ignorância bestial... " (PINHO, idem, ibidem)
a generalização de escolas racionais que trabalhem com as crianças desde a mais
tenra infância.
Os artigos de José Oiticica saem nos cinco primeiros números da revista
mensal A Vida. Eles levam o título de O desperdício da energia
feminina. Neles o autor propõe analisar a situação da mulher através
da história.
Oiticica desenvolve interessante argumentação sobre a Energética, teoria
da energia do Cosmos e do homem. Para ele "as energias humanas são
de cinco espécies: físicas, intelectuais, morais, práticas e sociais. " (OITICICA,
A Vida, n° 1, nov 1914, p. 6). A sociedade capitalista burguesa do início do
século no Brasil e no mundo provocava um grande desperdício de energia humana e
acentuadamente da feminina.
Quando o autor analisa o desperdício energia intelectual, refere-se ao
ensino e ao papel das mães na educação dos filhos. Para Oiticica, a educação da
massa de trabalhadores se dá por funcionários do Estado, por ele chamados de
ambíguos, isto é, pessoas que são dirigidas pela classe dominante, mas que ao
mesmo tempo dirigem os subalternos.
O objetivo deste ensino é "ministrar aos trabalhadores idéias, ou
antes, os preconceitos favoráveis à supremacia dos dirigentes." (OITICICA,
idem, ibidem). Para a elite dominante é importante manter grande parte da
população analfabeta ou semi-analfabeta. Para Oiticica, "É evidente que
essa classe de ignorantes representa uma formidável soma de energia intelectual
desperdiçada ". (OITICICA, idem, p.7).
A mulher, neste caso, sofre as piores
conseqüências permanecendo, salvo raras excepções, na mais profunda ignorância.
As que se revoltam contra o homem e os preconceitos burgueses sofrem tenaz
repressão.
Para o autor é lastimável que a mulher não tenha acesso à cultura porque:
"Basta considerar a educação do filho, para medir o alcance da educação
intelectual da mulher. Criar um filho, educar um filho é um problema que exige
uma instrução vasta e variada. Toda mãe de família deveria ser uma pedagoga;
mas pedagogia se baseia na psicologia e na fisiologia, que supõem o preparo em
ciências correlatas, digamos melhor em todas a ciências." (OITICICA,
idem, ibidem).
O papel da mãe, portanto, é de grande importância na formação intelectual das
crianças. O autor demonstra uma ampla visão de educação, não restringindo esta apenas
às escolas. As mães ignorantes passam para as crianças a ideologia dominante,
contribuindo assim para a manutenção da ordem burguesa.
Oiticica não concebe a educação da juventude apenas sob a responsabilidade e
exclusividade da escola. Ele percebe a importante contribuição que a família
pode dar na educação dos jovens. É certo que a família atual tem que ser
revolucionada e organizada sob uma orientação libertária. A família libertária
baseada no amor é assim explicada por Heliodoro Salgado:
"Desde que o homem e a mulher se desejem, se gozem, se estimem, tudo
mais resulta como os corolários de uma premissa. O amor implica
responsabilidade, o respeito, o cuidado, a solïdariedade plena em todas as
alegrias e em todas as dores.
Desde que se torne precisa a intervenção da lei é porque o amor cessou. E desde
que o casamento repouse sobre o amor, cessado este, está dissolvido aquele,
espontaneamente dissolvido, reassumindo cada qual dos membros do par conjugal a
sua inteira liberdade.
Assim comprometida, a união livre não é a anulação da família; é a sua
dignificação pelo respeito da liberdade, da personalidade dos esposos (. . .).
(...) O que impede (o amor livre) a sua generalização não é o crédito, das
velhas instituições familiares; são as necessidades econômicas dum regime das
riquezas fundadas na ´ legitimação dos filhos ´ .
Desde, porém, que o socialismo tenha conseguido minar e derruir as instituições
econômicas que herdamos dum passado bárbaro e desumano, essa justificação da
família legal terá desaparecido, e a família libertada passará a ter apenas por
base , por garantia e por lei, o amor.
Assim, a família não se extinguirá, a não ser que se extinga a própria
humanidade; mas depurar-se-á no sentimento e na prática da liberdade. "
(Salgado H. apud SOARES, V. Os trabalhadores e a questão da saúde – 1890. 1985,
pp. 25-6).
O autor conclui sua argumentação, afirmando a importância da mulher numa futura
sociedade acrata e o seu papel na extinção do desperdício da energia
intelectual humana:
"ninguém deveria ser mais enciclopédico do que a mãe de família e portanto
do que a mulher. Uma sociedade bem constituída seria aquela em que todas as
mulheres pudessem ser amplamente instruídas. " (OITICICA, A
Vida, n° 1, nov, 1914, p. 7).