Chega de pacifismo!

Este blog não é partidário de nenhum partido político.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A Formação de Sindicatos


Em fins do século passado na Europa o movimento anarquista começou a criar as condições para a aplicação das idéias anarquistas na vida diária. Isto ocorreu como resposta ao desastroso período da "propaganda pela ação" em que os anarquistas individualmente assassinavam líderes governamentais na tentativa de provocar um levante popular e em vingança pelo assassinato dos comuneiros. Reagindo a esta fracassada e contraproducente campanha, os anarquistas voltaram às suas raízes e às idéias de Bakunin, começando assim a formar sindicatos revolucionários de massas 
(sindicalismo e anarco-sindicalismo).
Entre 1890 e o início da primeira guerra mundial, os anarquistas estabeleceram sindicatos revolucionários na maioria dos países europeus, especialmente na Itália e França. Enquanto que os anarquistas norte e sul americanos também organizaram seus sindicatos com êxito. Quase todos os países industrializados tiveram seu movimento sindical, se bem que foram mais fortes na Europa e na América do Sul. Estes sindicatos se organizavam de maneira confederativa, de baixo para cima, 
segundo as idéias anarquistas. Combatiam o capitalismo diariamente envolvendo-se em assuntos como aumentos salariais e melhores condições de trabalho, mas também lutavam pela abolição do capitalismo através da greve geral revolucionaria.
A técnica organizativa anarquista alentava a participação, a militancia e o fortalecimento de seus membros proporcionando o crescimento dos sindicatos anarco-sindicalistas e seu impacto no movimento operário, alem disso também obtiveram conquistas na melhoria das condições de trabalho e no cultivo da consciência de classe. A poderosa COB (Confederação Operária Brasileira) no Brasil e a IWW (Industrial Workers Word), por exemplo, ainda inspiram ativistas sindicais e através de sua grande historia legaram muitos cânticos e slogans sindicalistas.
A maioria das associações de sindicatos foram reprimidas durante a primeira guerra mundial, mas nos anos seguintes de pós-guerra alcançaram grande crescimento. Esta onda de militancia foi conhecida na Itália como "os anos vermelhos", onde alcançou sua máxima expressão com as ocupações de fábricas (ver A.5.5 - Os Anarquistas nas Ocupações de Fábricas na Itália). Mas também durante estes anos, em alguns países ocorreu a destruição destes sindicatos por causa da amplitude de sua influencia. Por outro lado, o triunfo da Revolução Russa conduziu muitos ativistas para o campo da política autoritária. Os partidos comunistas deliberadamente minaram os sindicatos 
libertários, incitando lutas intestinais e divisões. Mais importante ainda, durante estes anos o capitalismo tomou a ofensiva com uma nova arma - o fascismo. O fascismo nasceu na Itália e Alemanha em uma tentativa dos capitalistas para esmagar fisicamente as amplas organizações que a classe trabalhadora havia construído. Nestes países os anarquistas se viram forçados a fugir para o exílio, sumir de vista, ou se converterem em vítimas de assassinatos em campos de concentração. Nos EEUU, a IWW foi esmagada por uma onda de repressão apoiada com toda força pelos meios de informação, o estado e a classe capitalista.
Na Espanha, contudo, a CNT, união anarco-sindicalista, prosseguiu crescendo, chegando a um milhão e meio de membros em 1936. A classe capitalista abraçou o fascismo para salvar seu poderio das mãos dos trabalhadores, que estavam cada vez mais confiantes em seu poder e em seus direitos de auto-gerir suas próprias vidas (ver A.5.6 - Anarquismo e a revolução espanhola). Em outros locais, os capitalistas apoiaram estados autoritários para esmagar o movimento operário e pôr o capitalismo a salvo nestes países. Somente a Suécia escapou ilesa, alí a organização sindicalista SAC até hoje permanece organizando trabalhadores (e o faz de fato, como muitos 
outros sindicatos, crescendo à medida que os trabalhadores rechaçam os sindicatos burocráticos cujos líderes estão mais interessados em proteger seus privilegios e negociar com a direção das empresas e o governo do que defender seus membros).

sábado, 19 de maio de 2012

A luta da burguesia contra o anarquismo: - Anarquismo


A luta da burguesia contra o anarquismo, assim como a luta do anarquismo contra a burguesia, assumiu e assume inúmeras formas. Neste texto nós pretendemos apenas indicar duas formas que, ao se combinarem, quiseram ser uma “pá de cal” sobre o anarquismo. Foram os meios encontrados para sepulta-lo. Mas para infelicidade da burguesia e do reformismo, não foram suficientes. O anarquismo, através da militância revolucionária, resiste, e hoje, mais que nunca, tende a avançar.

Queremos falar aqui de duas formas de repressão/combate ao anarquismo, que estão intimamente relacionadas entre si, mas que muitos por desconhecimento, ou por oportunismo, separam: a violência física e a violência simbólica, ou a polícia e a literatura (seja os romances/novelas, textuais ou visuais – é a era da televisão), seja a literatura científica. Muitos gostam de falar do papel da polícia na supressão do anarquismo. Sim, ele foi fundamental, não somente no combate ao anarquismo, mas em relação a todas as manifestações das camadas populares (negros, indígenas, pobres urbanos). Falar mal da polícia não é tão difícil, afinal é muito fácil se insurgir contra o carrasco. Mas muitos se esquecem que a polícia trabalhava para o mesmo Mecenas que os artistas e cientistas. E estes cumpriram um papel não menor no combate ao anarquismo. É sobre isso que falaremos. Como a narrativa, o discurso – materializado em romances, novelas, e teses científicas - pode ser parte de uma “máquina de guerra” burguesa, que opera com total autonomia tática, e por isso mesmo, pode fazer parecer que não é uma arma.

Este texto visa assim ser uma modesta contribuição àqueles que querem conhecer o anarquismo, que precisam ter idéia de que o discurso também é um campo onde se trava a luta de classes. Por isso, o uso que se faz hoje da memória e da narrativa pode ser tão repressivo quanto o foram em seu contexto, às polícias políticas e os serviços secretos, empregados para liquidar os militantes anarquistas.



Os conceitos antagônicos e a luta de classificações... as razões políticas de uma crítica teórica


Anarquismo. É uma palavra que carrega em si seu significado? No nosso entendimento não. Como qualquer palavra, ela adquire significado no uso social, através do emprego que delas fazem os serem humanos, enquanto sujeitos históricos. Nunca é demais lembrar determinados fatos, pois às vezes o óbvio não é senão uma cortina de fumaça que dificulta a visualização de imagens complexas. O anarquismo, enquanto conceito, teve pelo menos duas grandes definições. A definição burguesa, criada nas cortes e centros empresariais, assim como no coração do Estado. E outra definição, criada no seio do proletariado e das camadas populares, que equivalia a uma identidade social que articulava idéias, valores e práticas, ou seja, uma ideologia. Pierre-Joseph Proudhon, foi quem primeiro reivindicou para si o uso da designação “anarquista” de forma positivada. Inverteu assim a tradição burguesa e aristocrática que empregava o termo com a conotação de desordem e caos, normalmente aplicadas para (des)qualificar os distúrbios sociais. O mesmo não se faz hoje? Sim.

Assim, o anarquismo enquanto ideologia de movimentos populares, enquanto fenômeno histórico nasce de uma luta no plano do discurso, como questionamento do discurso burguês e aristocrático, como sua negação. Esta luta permaneceria, só que iria adquirir outros contornos.

No final do século XIX, uma onda repressiva assolaria a Europa, e os anarquistas, como estavam na linha de frente dos movimentos das classes trabalhadoras, foram alvo de campanhas militares e ideológicas. A crise do movimento operário, em um contexto de assassinatos e massacres, levou a respostas de militantes anarquistas que respondiam com bombas e liquidação física de burgueses. Os casos mais conhecidos são Emily Henry e Ravachol.

Mas ao mesmo tempo houve um fenômeno paralelo a este e que acabaria por influenciar os acontecimentos: uma tentativa burguesa de se “reapropriar” do conceito de anarquismo, que tinha passado para as mãos das classes trabalhadoras e populares. Este fenômeno aconteceu de duas maneiras: no campo das artes e da literatura, aonde se fazia a apologia dos “atos violentos individuais” dos anarquistas, nos romances e novelas. Luigi Fabri, no seu livro “Influencias Burguesas sobre o Anarquismo”, fala de como escritores e artistas burgueses, que no plano político eram na maioria das vezes reacionários e nacionalistas, enalteciam nas suas novelas e romances o anarquismo, ou melhor, o conceito burguês de anarquismo, identificando este com o ato “heróico individual”. Um exemplo disso é a novela de Emile Zola, Germinal, depois transformada em filme, onde o personagem do “dinamiteiro” é descrito com sutil simpatia, sendo o estereótipo do “anarquista” na visão romântica da burguesia do século XIX. Enquanto isso Malatesta, e os remanescentes da Aliança (organização revolucionária anarquista) e da Internacional se espalhavam pelo mundo, ajudando na construção de diversas Centrais Sindicais no final do século XIX e início do século XX. No conceito burguês, a exaltação do indivíduo; no conceito popular e proletário, a ênfase é sobre o sujeito coletivo (o operário, o camponês, por exemplo). Este, não seria sequer reconhecido pela literatura.

Os artistas e escritores produziam um discurso romântico apologético do anarquismo, mas não do conceito proletário popular, mas sim do conceito burguês, que reduzia anarquismo a violência. Simultaneamente, os jornais de grande circulação da época também produziam um discurso sobre o anarquismo, só que identificando anarquismo e criminalidade. Assim, qualquer ato de roubo, assassinato ou deliquência era atribuído a anarquistas.

O que é interessante é que este discurso acabou tendo efeito sobre muitos indivíduos, que começaram a identificar o anarquismo com o conceito burguês, e logo se produziu uma tensão dentro do movimento anarquista. Criminosos começaram a se dizer anarquistas, e burgueses jovens começaram a procurar os anarquistas para poderem praticar “atos heróicos individuais”, e alguns indivíduos que participavam das fileiras anarquistas começaram a ser atraídos para tal campo.

Mas o que Fabri mostra é que apesar desse efeito social, os indivíduos que por esse conceito enveredavam, logo deixavam o anarquismo para ser atraídos para as fileiras da burguesia, do nacionalismo ou mesmo da mera criminalidade. A ofensiva discursiva produziu efeitos sobre o movimento anarquista, sobre as pessoas concretas que no seu meio circulavam, mas o conceito popular e proletário se manteve diferenciado e intacto, e vivo, pois o sindicalismo revolucionário e a militância das organizações anarquistas permaneceria uma constante. Ainda no final do século XIX, ganhando força na Europa, Ásia e Américas. A luta discursiva da burguesia contra o anarquismo conseguiu atingir o movimento anarquista de sua época, debilitando-o do ponto de vista da composição, mas não abalou seus alicerces ideológicos.

O que dissemos pode ser mais fácil de ser visualizado se consideramos a nossa própria história recente. Nos romances de Rubem Fonseca e Nelson Rodrigues há vários personagens “comunistas”, descritos quase sempre de maneira ambígua, exaltando suas qualidades morais e desqualificando sua proposta política. Isso fazia de R. Fonseca e N. Rodrigues comunistas? Não, é sabido que ambos eram reacionários .... Hoje, qualquer ato de “violência” no campo é atribuído aos “sem-terra” pela mídia burguesa. Ser sem-terra é quase a mesma coisa que ser bandido. Mas não é difícil aceitar que uma coisa é fazer parte do movimento social, outra é ser bandido. Através da mídia fala a UDR, assim como através dos romances do século XIX falavam a burguesia e a corte.

Aqui estão as razões políticas para uma crítica teórica. A luta em torno da categoria “anarquismo” sempre foi encarniçada; a burguesia a definia pejorativamente como crime, ou romanticamente como um ato heróico violento, individual. O proletariado e o povo, e as organizações que elas criaram, definiam o anarquismo como uma ideologia de luta, socialista (anti-capitalista) e revolucionária libertária (anti-estatal). E por trás da luta discursiva, estão milhares de mortos, o sangue generoso de camponeses, operários, homens e mulheres, jovens e idosos, que viam no anarquismo a forma de mudar sua vida para melhor. Isso tem de ser lembrado, e por nós é reverenciado. A repressão da polícia se combinava com a repressão discursiva, da literatura dos romances e jornais, muito mais sutil e ambígua, mas não menos destrutiva.



Recusando o autoritarismo intelectual... ou os fundamentos teóricos de uma crítica política



O anarquismo pode ser conhecido de diversas maneiras, seja através dos indivíduos e grupos que atribuem a si mesmo a designação de anarquistas, seja através do estudo da história, ou seja do discurso, materializado principalmente em jornais, livros e imagens de vídeo e/ou fotos. Como vimos, existiu uma luta discursiva em torno da definição do que era anarquismo. Existe então pelo menos dois conceitos de anarquismo. Logo, os indivíduos que atribuem a si mesmo a designação de anarquista, podem estar reivindicando ou o conceito burguês, ou o conceito proletário e popular. Assim como, as fontes que se utiliza para a escrever a história, podem estar expressando o conceito burguês ou o popular. E aqui podemos colocar fundamentos teóricos para nossa crítica política.

Todos sabem, ou deveriam saber, que a ciência, assim como a literatura, não é algo neutro em relação ao poder e a dinâmica social. Podemos dizer que a ciência é uma forma de poder, que sempre acompanhou a conquista e a violência (o racismo científico é a expressão mais bizarra deste fato). Sendo assim, as modalidades de discurso científico que hoje falam sobre o anarquismo, podem ser também formas de repressão ao anarquismo, dependendo da abordagem teórica que empreguem.

Autoritarismo intelectual, de certa maneira, quando se fala de ciência, esta expressão é quase redundante. A maior parte das vertentes modernas das ciências humanas (estruturalismo, funcionalismo, pós-modernismo e etc.) normalmente combinam a arrogância intelectual com um apoliticismo grosseiro, materializado na visão estática e totalizadora da história e da sociedade, quase sempre considerada como expressão de forças supra-humanas (a cultura, as forças produtivas, a consciência coletiva ou a psique individual). De comum, a supressão do conflito. A desconsideração da “polifonia” (não é este termo que hoje se gosta de empregar?), e do caráter dissonante das vozes e de suas relações.

Nas universidades brasileiras, o predomínio do marxismo mais mecanicista (do estilo Nelson Werneck Sodré) tendeu a se apropriar do conceito burguês de anarquismo (como o marxismo sempre fez, com raras exceções) ou então o introduzindo num esquema evolucionista da história, ao lado dos camponeses, indígenas e negros, numa suposta fase “pré-política”. Hoje isso pode parecer piada, já que ao olharmos a biografia de Sodré, sabemos que ele foi militar de alta patente, que não viu problema em trabalhar dentro do DIP (departamento de imprensa e propaganda) de Getúlio Vargas, expressando o que tinha de mais atrasado em termos de formulação teórica, mesmo para sua época. Assim, no caso do Brasil, ainda aparece o conceito marxista de anarquismo, tomado diretamente da literatura burguesa, plenamente enraizado nas instituições acadêmicas.

Consideramos que do ponto de vista teórico, não se pode ocultar este conflito, as múltiplas posições dos “autores” que falam sobre anarquismo, e sua inserção no cenário político e social. Isto será determinante na própria construção discursiva do anarquismo, seja materializado este discurso num romance ou numa tese acadêmica (ou em comentários feitos dentro delas). Quando se fala de anarquismo, se fala de uma luta, entre burguesia e camadas populares, pela definição de um conceito no plano do discurso.

Teoricamente, uma metodologia que desconsidere esta multiplicidade de vozes em nome de uma “unidade” do anarquismo tende, na melhor das hipóteses, para a falsificação, na pior, para a campanha difamatória, na intermediária, para tentar conciliar todos os conceitos, como se mantivessem uma relação de continuidade, uma “unidade intrínseca”.

Pode ser encontrado um paralelo desta postura teórica no cientificismo colonialista europeu, que para manter a unidade do que entendiam ser uma nação (eles viam uma imagem degenerada de si mesmos em tudo que era diferente deles), que reunia diferentes etnias africanas num mesmo Estado e território, afinal eram todos “negros”. Ou seja, o autoritarismo que se esconde atrás deste discurso bondoso da “unidade” é muito grande, pois usa traços muito superficiais que ele mesmo determina para classificar os sujeitos concretos e desconsidera/suprime os discursos e interesses destes últimos (etnias no conflito colonial, anarquistas no conflito social), e como o botânico que “classifica borboletas”, quer reunir coisas que são muito diferentes (porque assim se concebem e fazem no plano da prática social[1]), em torno da categoria genérica que ele mesmo construiu em seu laboratório. É o poder do cientista suprimindo as vozes dissonantes da sociedade em uma unidade. É uma das formas mais sutis do anti-anarquismo, que se concretiza neste tipo de abordagem teórica e metodológica.



Porque não conciliar? ... ou o que faz do anarquismo, anarquismo.



A resposta para esta pergunta é simples. Primeiro, por uma questão política. Para nós anarquismo é luta e organização, uma ideologia popular e proletária. Segundo, por uma questão teórica; se hoje toda as ciências humanas caminham para uma reflexão crítica sobre o seu papel nas relações de dominação, não se pode aceitar que alguém que estude ou se identifique no anarquismo fique usando o conceito no sentido genérico. É preciso que cada um deixe claro seu posicionamento frente aos diferentes conceitos de anarquismo, e ao fazer isso, estará marcando uma posição. Não se pode desconsiderar este fato, acreditando que o anarquismo de “A Plebe” é o mesmo que o das páginas dos jornais burgueses do início do século, ou que José Oiticica pode ser colocado ao lado de Roberto Freire, empresário da Somaterapia, porque tudo seria “anarquismo”.

O conceito de anarquismo de José Oiticica está materializado nas páginas do jornal “Ação Direta”, que foi redigido até sua morte, nos anos cinqüenta. O “anarquismo” reivindicado por Roberto Freire é o do conceito burguês e marxista, basta ver a trajetória de Freire. Ele rompe com a Ação Popular (grupo católico com influência leninista) reivindicando o anarquismo, mas não o conceito proletário e popular, mas sim o conceito caricatural usado pelo PCB da época, que nada tinha a ver com a história do anarquismo brasileiro. Aí surge uma grande falsificação histórica. Posicionado nos lugares de “autoridade” e visibilidade propiciados pela sua psicanálise, Freire constrói um discurso burguês do anarquismo que vai ser comercializado como “o anarquismo”.

Mas a figura de Freire é grotesca. Como anarquista ele é um ótimo psicanalista, e como psicanalista é um péssimo anarquista (ou excelente empresário). Para nós é apenas um burguês. Criticar e evidenciar isso é suprimir a “liberdade”? Não. É realiza-la. Pois quem está suprimido no discurso burguês é a polifonia, as vozes de Edgar Leunroth, José Oiticica e Domingos Passos e toda a história proletária que eles encarnam. Esses sim são anarquistas.

Lutar contra a autoridade do discurso burguês é uma das formas da luta de classes. O mesmo acontece quando lutamos contra a propriedade privada; os burgueses reclamam da “liberdade e do direito de propriedade”, que os anarquistas nunca respeitaram e nunca irão respeitar. Sempre quiseram suprimir. E é isso que faz do anarquismo, anarquismo. É bom não esquecer: “Socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade, Liberdade sem Socialismo é privilégio, injustiça”. Dizia Bakunin. Isso faz do anarquismo, anarquismo.

Além do mais, basta escrever uma história do anarquismo, ou consultar os textos de Malatesta, Kropotkin, Makhno e Bakunin, e os jornais operários, para vermos que eles sempre marcaram uma fronteira que separasse o conceito burguês do conceito proletário de anarquismo. Por mais que discordassem entre si sobre pontos diversos (Bakunin fez críticas de Proudhon, Malatesta fez de Kropotkin, Makhno de Malatesta, o que confere uma diversidade ampla ao pensamento anarquista), todos sempre criticaram os “individualistas”, e recusavam reconhece-los enquanto anarquistas. E não reconheciam. Basta ir ler seus escritos. Obviamente, os individualistas consideravam por sua vez, Bakunin e Malatesta, por exemplo, “falsos anarquistas”, e por isso um deles deu um tiro em Malatesta, na sua visita aos EUA. Isto é que é respeito à “liberdade individual” e de pensamento. Ou seja, não houve “síntese” do conceito popular com o conceito burguês de anarquismo, mas sim luta.

Adotar uma tal metodologia, apesar de ser em si uma posição política, não faz da pessoa que a toma anarquista. Assim como o relativismo da sociologia de Weber, que permitiu compreender a ação sob a ótica de quem a empreendia, não fez dele um revolucionário. Sempre foi um liberal moderado. Mas sua abordagem teórica não deixa de ser útil por causa disso.

Deveria ser óbvio que estudar o anarquismo não faz de alguém anarquista, assim como estudar borboletas não faz do botânico uma borboleta (apesar de muitos, devido a sua “autoridade científica”, quererem falar em nome das borboletas). Infelizmente para alguns, e felizmente para nós, o mesmo não é possível em relação ao anarquismo, porque os anarquistas, diferentemente das borboletas – pelo menos as borboletas que sabemos que existem – são capazes de falar por si. E assim como as minorias étnicas e os povos colonizados (alguns gostariam de chamá-los ainda de primitivos), nos seus movimentos de liberação política fizeram a crítica da ciência, nós no nosso permanente movimento de liberação social não poderíamos deixar de fazer o mesmo.

Para nós não é uma questão de verdade, de dizer quem é e quem não é anarquista, mas sim de explicitar as relações políticas e posições teóricas. E ao fazer isso ficará claro que a luta de conceitos, assim como a luta de classes, permanece. A nossa posição e conceito de anarquismo, o que faz de nós anarquistas, estão explicitas. Isto também faz, do anarquismo, anarquismo. É no espírito de contribuir para o debate público que este texto foi formulado. Esperamos que ele possa ajudar, mesmo que de maneira modesta, aqueles que querem conhecer o anarquismo. Os demais, que se posicionem também.





Nem um passo atrás !!!

Anarquismo é Luta !!!



Federação Anarquista Insurreição (FAI), Rio de Janeiro, 2003. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A revolução social


Na ótica anarquista, a revolução social consistiria na quebra drástica, rápida e efetiva do Estado e de todas as estruturas, materiais e não-materiais, que o regiam ou a ele sustentavam. Este princípio é primordial na diferenciação da vertente de pensamentos libertária em relação a qualquer outra corrente ideária. É a diferença básica entre o socialismo libertário e o socialismo autoritário.
Sob a ótica do marxismo, seria necessária a instrumentalização do Estado para a prossecução planejada, detalhada e gradativa da revolução, sendo instituída a ditadura do proletariado para o controle operário dos meios de produção até a eclosão do comunismo. Sob o ideário anarquista, a revolução deve ser imediata, para não permitir que os elementos revolucionários possam ser corrompidos pela realidade estatal. De acordo com os libertários, a ditadura do proletariado nada mais é do que uma ditadura "de fato", continuando a exercer coerção, opressão e violência sobre a sociedade. Por isso, segundo os libertários, a revolução social deve ascender o mais rápido possível à sociedade anarquista, ao comunismo puro, para, através dos princípios da defesa da revolução, não permitir a ressurreição do Estado.
Por fim, por intermédio do processo de destruição completa do Estado, sobre todas as suas formas, torna-se plenamente tangível a liberdade, podendo o sujeito renovar de forma efetiva os seus princípios e preceitos humanistas.

Humanismo

Nos meios anarquistas, de forma geral, rejeita-se a hipótese de que o governo ou o Estado sejam necessários ou mesmo inevitáveis para a sociedade humana. Os grupos humanos seriam naturalmente capazes de se auto-organizarem de forma igualitária e não-hierárquica, mediante os progressos originados pela educação libertária. A presença de hierarquias baseadas na força, ao invés de contribuírem para a organização social, antes a corrompem, por inibirem essa capacidade inata de auto-organização e por dar origem à desigualdade.[carece de fontes]
Desta forma, a partir da conscientização, aceitação e internalização da sua essência humana, ideia suprimida anteriormente pelo Estado, segundo os anarquistas, emerge naturalmente na sociedade humana o anseio pela ascensão da ideia-base de qualquer forma de vida real: a Liberdade.

Liberdade


A Liberdade é a base incontestável de qualquer pensamento, formulação ou ação anarquista, representando o elo sublime que conjuga de forma plena todos os anarquistas. Assim, entre os anarquistas, a Liberdade deixa apenas o plano abstracional (do pensamento) para ganhar uma funcionalidade prática, sendo o símbolo e a dinâmica do desenvolvimento humano real. Em outras palavras, o princípio básico para qualquer pensamento, ação ou sociedade ser definida como anarquista é que esteja imersa, tanto abstracionalmente (ideologicamente), quanto pragmaticamente (no âmbito das ações), no conceito de Liberdade. Liberdade física, de gênero, de pensamento, de ação, de expressão, de usufruto consciente dos recursos humanos, sociais e naturais, de negociação e interação, de apoio mútuo, de relacionamento e vinculação sentimental, de fé e espiritualidade, de produção intelectual e material e de realização coletiva e pessoal.
Para a encarnação da Liberdade, no entanto, é necessária a erradicação completa de qualquer forma de autoridade.

Antiautoritarismo

O Antiautoritarismo consiste na repulsa e no combate total a qualquer tipo de hierarquia imposta ou a qualquer domínio de uma pessoa sobre a(s) outra(s), defendendo uma organização social baseada na igualdade e no valor supremo da liberdade. Tem como principais, mas não únicos, objetivos a supressão do Estado, da acumulação de riqueza própria do capitalismo (exceto os Anarco-capitalistas) e as hierarquias religiosas. O Anarquismo difere do Marxismo por rejeitar o uso instrumental do Estado para alcançar seus objetivos e por prever uma Revolução Social de caráter direto e incisivo, ao contrário da progressão sócio-política gradual - socialismo - rumo à derrubada do Estado - comunismo - proposta por Karl Marx.
De acordo com a corrente de pensamentos libertária, a supressão da autoridade é condicionada pela ação direta de cada indivíduo livre, prescindindo-se completamente de qualquer intermediário entre o seu objetivo, enquanto defensor da Liberdade, e a sua vontade. O anarquista entende que "enquanto houver autoridade, não haverá liberdade".

]Ação direta

Os anarquistas afirmam que não se deve delegar a solução de problemas a terceiros, mas antes, atuar diretamente contra o problema em questão, ou, de forma mais resumida, "A luta não se delega aos heróis". Sendo assim, rejeitam meios indiretos de resolução de problemas sociais, como a mediação por políticos e/ou pelo Estado, em favor de meios mais diretos como o mutirão, a assembleia(ação direta que não envolve conflito), a greve, o boicote, a desobediência civil (ação direta que envolve conflito), e em situações críticas a sabotagem e outros meios destrutivos (ação direta violenta).
No entanto, a Ação Direta, por si só, não garante a manutenção e a perpetuação das condições humanas básicas, tanto em termos estruturais, quanto no aspecto intelectual, necessitando de uma extensão operacional ilimitada a fim de fazer da força humana global uma só energia coletiva. Decerto, somente a solidariedade e o mutualismo máximos podem promover essa harmonia social.

]Apoio mútuo

Os anarquistas acreditam que todas as sociedades, quer sejam humanas ou animais, existem graças à vantagem que o princípio da solidariedade garante a cada indivíduo que as compõem. Esteconceito foi exaustivamente exposto por Piotr Kropotkin, em sua famosa obra "Mutualismo: Um Fator de Evolução". Da mesma forma, acreditam que a solidariedade é a principal defesa dos indivíduos contra o poder coercitivo do Estado e do Capital.
Mas, para que a solidariedade se torne uma virtude "de fato" é necessária a erradicação de qualquer fator de segregação ou discriminação humanas. Com esse objetivo, o internacionalismo se firma enquanto o princípio proeminente da integração sociolibertária.

Internacionalismo

Para os anarquistas, todo tipo de divisão da sociedade - em todos os aspectos - que não possua uma funcionalidade plena no campo humano deve ser completamente descartada, seja pelos antagonismos infundados que ela gera, seja pela burocracia contraproducente que ela encarna na organização social, esterilizando-a. Logo, a ideia de "pátria" é negada pelos anarquistas.
Os libertários acreditam que as virtudes - bem como o exercer pleno delas - não devem possuir "fronteiras". Assim, acreditam que a natureza humana é a mesma em qualquer lugar do mundo, exigindo, independentemente do universo material ou cultural onde o ente humano esteja inserido , uma gama infinita de necessidades e cuidados. Em outras palavras: se a fragilidade do homem não tem fronteiras, por que estabelecer empecilhos ao seu auxílio?
Vale lembrar que o conceito libertário de internacionalismo se difere completamente do conceito que conhecemos - portanto, capitalista - de globalização. Globalização é a ampliação a nível mundial da difusão de produtos - ideológicos, culturais e materiais - de determinados segmentos capitalistas, visando à potencialização máxima da capacidade mercadológica dos agentes operantes - na maioria das vezes, as empresas e as grandes corporações -, sendo, para isso, desconsideradas parcial ou completamente todas as conseqüências humanas do processo, já que é a doutrina do "lucro máximo" que rege essas operações. Por outro lado, o internacionalismo, por se alijar completamente de todo o ideário capitalista, não possui nenhuma tenção lucrativa, capitalista, e não é permeado por estruturas privilegiadas de produção - como as indústrias capitalistas -, sendo regido pela solidariedade e mutualismo máximos.
Didaticamente, o internacionalismo pode ser definido como sendo a difusão global de "serviços" humanos, e a globalização como a difusão global de "hegemonias" mercadológicas.

]Virtuosidade da revolta

A revolta - na noção anarquista, a força "humano-social", a oposição enérgica e incisiva contra qualquer forma de autoridade material ou abstrata - é marginalizada tanto no historicismo, nas compreensões da realidade baseadas em experiências passadas, quanto na sua operação no contexto subjetivo, da função dela na vida do indivíduo. Por ser uma força temida, quase sempre hermética e combatida em quaisquer culturas, a revolta é considerada e difundida como uma expressão artificial do ser humano, suscitada por fatos, por situações externas ao ser. Nesse sentido, segundo os teóricos libertários, uma das maiores características dos anarquistas é a compreensão da revolta enquanto um substrato humano, enquanto uma virtude absolutamente natural e efetivamente produtiva nos desenvolvimentos humano e social. Em outras palavras, para os anarquistas, a revolta é, assim como o amor, o afeto, a paz, a harmonia e a sabedoria, uma força imanente à própria mente humana. Para eles, o que define a efetividade da revolta é a forma como ela ultrapassa a sua condição abstrata, na mente de cada um, para se consolidar em ações, em transformação social.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Pedagogia Anarquista Brasileira


A revista A Vida era uma publicação mensal de Filosofa libertária que existiu no Brasil de Novembro de 1914 a Maio de 1915. Saíram 7 número: da revista e o grupo que a produzia se dispersou logo depois. Apesar da existência efêmera, a sua importância foi significativa.
Esta revista pode ser considerada como uma das primeiras no Brasil a se preocupar com a formação ideológica e com a consciencialização da classe trabalhadora. Os editores desta publicação também se preocupavam com a organização concreta da classe operária e incentivavam as suas lutas do dia a dia os seus sindicatos.
Foi uma revista não-sectária, aberta, chegando a publicar obras escritas por religiosos que atacavam o sindicalismo revolucionário. Nela aparecem artigos contra a guerra e o imperialismo, sobre o internacionalismo, sobre a questão da mulher, preocupa-se com a história dos primeiros núcleos de trabalhadores organizados no país e discute com o positivismo, através de interessante polêmica com Teixeira Mendes, um dos "papas" desta filosofia no Brasil.
A revista A Vida também canalizou energias para a reflexão sobre a educação e esta preocupação educativa perpassa grande parte de artigos e seções da revista. A seção que aparece a partir do segundo exemplar denominada Leitura que recomendamos - O que todos devem ler é um bom exemplo da preocupação da revista com a formação intelectual dos militantes anarquistas.
Nesta seção aparecem referências a vários livros, folhetos e jornais libertários, livros como os de Kropotkin, Jean Grave, Neno Vasco, Eliseu Reclus, Sébastien Faure e vários outros autores importantes. É interessante notar que na lista de obras relacionadas como recomendadas aparecemO Capital de Karl Marx e Assim Falava Zarathustra de Nietzsche, o que vem demonstrar a abertura intelectual destes libertários brasileiros do início do século.

Nesta mesma seção aparece também a referência aos livros do educador libertário português Adolfo Lima. Os exemplares citados são: O contracto do trabalhoO ensino de História (um volume de 63 páginas); O teatro na escola (um volume de 32 páginas) e Educação e Ensino(Educação integral). Estes livros divulgaram várias noções sobre a educação libertária e devem ter sido lidos; pelo menos, por uma dúzia, de anarquistas no início do século.

Estes brasileiros que, orientados pela Filosofia socialista revolucionária, refletiram sobre a realidade brasileira e propuseram soluções baseadas nos interesses dos trabalhadores podem ser considerados como uns dos primeiros intelectuais orgânicos dos subalternos do Brasil.

A revista mensal A Vida apresentou três artigos escritos especialmente sobre o tema educação. São os seguintes: "As escolas e sua influência social - o ensino oficial e o ensino racionalista" (PENTEADO, João, dez. 1914); "A instrução e o Estado" (LIMA, Efren, Jan. 1915); "A escola - prelúdio da caserna" (PINHO, Adelino de. , mar. 1915). Existe também uma série de textos de José Oiticica denominada O desperdício da energia feminina onde, tratando da questão da mulher na sociedade capitalista, o autor escreve sobre o papel das mães na educação dos seus filhos.

O artigo de João Penteado mostra a importância da escola para manutenção ou mudança da hegemonia da ideologia burguesa. A classe dominante tem claro que é nas escolas "que reside o segredo da força mantenedora dos preconceitos patrióticos, da convenções sociais, das superstições e dos dogmas religiosos" (PENTEADO, J. A Vida, n. ° 2, dez. 1914, p. 8). Por isso, o Estado e a Igreja disputam o controle da instrução do povo e têm o objetivo de formar mentalidades adaptadas aos seus interesses de classe. É nas escolas oficiais do Estado e nas escolas confessionais que se amoldam e se mutilam as consciências das classes populares. Nestas escolas se cultiva e se cultua a atrofia da razão e são infiltradas nas crianças das classes subalternas as mentiras patrióticas e religiosas.

A burguesia, através do Estado capitalista, cria portanto a subordinação intelectual no sentido desenvolvido por António Gramsci. Subordinação intelectual é um conceito utilizado por este pensador para apresentar a sua visão da dimensão ideológica da dominação de classe na sociedade capitalista.
No pensamento gramsciano a dominação do capital sobre o trabalho, que resulta na exploração das classes subalternas, é o momento da dominação econômica. Existe também uma dominação político-ideológica que se faz pela repressão (exército, policia, prisão, etc.) e/ou pela dominação ideológica (consenso social que é expresso pela aceitação, pela maioria da população, da direção que a classe dominante dá à sociedade). Os socialistas libertários em geral percebem esta importante faceta da dominação burguesa. É através das escolas oficias estatais e das escolas confessionais que se generaliza a dominação ideológica capitalista.

Para Gramsci, a dominação dos subalternos acontece por dois fatores essenciais: o primeiro é a interiorização da ideologia dominante pelas classes subalternas e o segundo é a ausência de uma visão de mundo coerente e homogênea por parte desta mesma classe. Na teorização e na prática anarquista eles enfrentam estes dois problemas. Para solucionar o primeiro, que explica a participação massiva dos trabalhadores nos combates da 1' Guerra Mundial, os libertários propõem a denúncia da ideologia burguesa, veiculada através das escolas do Estado e da Igreja e implementam a criação das suas escolas anarquistas e/ou racionais e/ou modernas, que apesar de modestas, travarão o combate para a criação de uma ideologia proletária, que proporcionará à classe subalterna uma visão de mundo coerente e homogênea que desencadeará a luta pela criação e desenvolvimento da sociedade acrata.

A burguesia procura monopolizar a instrução popular para evitar "o progresso das idéias novas que levam os trabalhadores à revolta, à luta, à guerra contra todas as explorações do homem pela homem, contra todas as injustiças, contra todos os privilégios sociais." (PENTEADO; idem, ibidem).
A classe dos capitalistas, por meio da escola oficial estatal, procura, através de um premeditado e constante trabalho, inocular na juventude popular a sua ideologia. O autor exemplifica citando a 1° Guerra Mundial, em que a escola incentiva o patriotismo e o militarismo preparando a juventude para aceitar naturalmente o derramamento de sangue, o saque e a devastação de cidades que esta guerra trouxe.
João Penteado, sintonizado nos ideais libertários, propõe como alternativa à escola oficial estatal a criação de escolas racionais. Estas escolas "excluem de seu programa todos os preconceitos patrióticos e religiosos, tendo sempre em mira, antes de tudo, a educação e a instrução da infância de acordo com a razão e com a verdade das cousas que constituem o objetivo principal de nossa vida e a razão de nossos atos, já fazendo despertar-lhe todas as aptidões naturalmente manifestadas para o trabalho produtivo, para a ciência e para as artes, já encaminhando-a de modo humano e racional para a conquista de todas as felicidades, descortinando para as suas vistas horizontes novos, fulgurantes, iluminados." (PENTEADO, idem, p.9).
A proposta libertária de João Penteado realça a importância de trabalhar no educando as suas aptidões naturais, deixando-as fluírem com liberdade para que o jovem possa aproveitar ao máximo as suas potencialidades. Tal proposta visa à formação de um ser humano que atue e crie nas várias áreas da atividade social, um homem que seja capaz de desenvolver uma atividade produtiva concreta, que produza ciência com interesse e que também atue no campo das artes.
Esta proposta de educação segue o ideário libertário que não acredita na possibilidade da transformação revolucionária da escola estatal ou confessional. Portanto, os anarquistas procuram criar novas escolas que trabalhem baseadas no ideal racional-libertário. No texto de João Penteado, ele faz referência à criação em São Paulo de uma escola racionalista:
"É este, pois, se bem que modestamente, o trabalho que temos iniciado em Sãa Paulo e que precisa, de certo, da decidida boa vontade de todas as consciências livres, da cooperação de todos aqueles que sentem a verdadeira e urgente Necessidade de se opor uma barreira à tanta degenerescência moral que se observa nos espíritos de nossos contemporâneos."(PENTEADO, idem, ibidem).
Outra referência a uma iniciativa de criação de uma escola racionalista, no início do século, é o anúncio que aparece na revista libertária A Vida de Março de 1915:
"Escola Nova Acaba de instalar-se em São Paulo, a rua Alegria , 26 (sobrado), um instituto de instrução e educação, para meninos e meninas, e que se serve dos métodos racionais e científicos da pedagogia moderna.
As matérias de ensino são ministradas em três cursos especiais, primário, médio e superior.
Curso primário: português, aritmética, geografia, botânica, zoologia, caligrafia e desenho.
Curso médio: português aritmética, geografia, mineralogia, botânica, zoologia, física, química, geometria, história universal, caligrafia, desenho.
Curso superior: aritmética, álgebra, botânica, zoologia, mineralogia, física, química, história universal, geologia, astronomia, desenho, português, italiano, espanhol, etc.
Os cursos primário e médio acham-se a carga dos " educacionistas. Florentino de Carvalho e Antonia Soares. O curso superior acha-se sob a direção de intelectuais de reconhecida competência, figurando entre eles o professor Saturnino Barbosa, Drs. Roberto Feijó, Passos Cunha, A. de Almeida Reqo, Alfredo Júnior, os quais lecionam matérias de sua respectiva especialidade.
Como se vê, a Escola Nova é uma bela iniciativa, que merece todo o apoio dos amigos da educação racionalista" (A Vida, no. 5, 31/1/1915, p.79-80).
É importante realçar que, em praticamente todas as escolas fundadas por anarquistas no Brasil do início de século, eles implantaram a propostas de Ferrer de coeducação de ambos os sexos. Como para o educador espanhol, os libertários do Brasil não aceitavam de modo algum uma educação em separado para as mulheres.
Podemos também perceber, pelo anúncio da Escola Nova da rua Alegrai, que os cursos oferecidos por esta escola apresentavam um amplo leque de disciplinas. No curso superior, a palavra etc demonstra bem a predisposição dos anarquistas a se abrir para o novo, vontade de acolher novas sugestões e de oferecer novas matérias, abrindo assim o programa para uma permanente reformulação.
Existem várias referências de criação de escolas racionais no Brasil de início do século. Estas escolas, apesar das grandes dificuldades, sobreviveram durante anos e eram, na visão socialista libertária, um dos principais recursos se atingir a sociedade acrata.
O texto de Efren Lima, que aparece na revista A Vida no. 3, de 31 / 1 / 1915, trata de vários temas relacionados com a educação do ser humano.
O autor afirma como é maléfico para o ensino de sua época a dependência do Estado. Para a educação é de fundamental importância existir a liberdade. Para E. Lima, o Estado controla o ensino porque percebe a sua importância para a submissão das massas à autoridade da burguesia. É o Estado que nomeia os professores e impõe às escolas públicas primárias e superiores.

"uns programas instrutivos, cuidadosamente compilados pelos governos e consoantes com os seus interesses econômicos, políticos, partidários etc." (Lima, Efren, A Vida, 31 / 1 / 1915, p. 6).

O educador libertário do início do século XX demonstra clara noção da importância do Estado capitalista na organização da dominação burguesa. O critério de recrutamento de professores e de programas é de vital importância para a consolidação da dominação ideológica burguesa. A criação do consenso social, que consiste na aceitação acrítica da dominação e da direção que a classe burguesa dá à sociedade, passa pelo controle do aparelho educacional e da instrução popular.

O aumento de escolas para o povo, patrocinado pelo Estado capitalista no início do século XX, tem a preocupação de ensinar aos alunos "crenças religiosas, amor pelas pátrias, respeito às autoridades, obediência às leis, proteção à propriedade privada, e milhares de monstruosidades análogas" (LIMA, idem, ibidem). Esta escola procura e consegue passar para os subalternos a ideologia que interessa à burguesia. criando a hegemonia desta.

Hegemonia, que na concepção gramisciana, é o conjunto das funções de domínio e direção, exercido por uma classe social dominante no decurso de um período histórico, sobre outra classe social e até mesmo sobre o conjunto das classes da sociedade. A hegemonia tem duas funções: uma de domínio e outra de direção intelectual e moral. O domínio supõe o acesso ao poder e o uso da força, compreendendo a função coercitiva; a direção intelectual e moral se faz através de persuasão, promove a adesão por meios ideológicos, constituindo a função propriamente hegemônica.

Efren Lima reflete sobre as bibliotecas da escola oficial estatal e sobre os escritores que "elaboram obras pueris, concordes com as tolerâncias do meio, que acham bom como é, e ao qual nunca ousariam tentar uma depuração" (LIMA, idem, ibidem). Nestas bibliotecas existem obras de escritores, que na verdade colaboram para anestesiar e alienar os trabalhadores. Estes escritores são os verdadeiros intelectuais orgânicos da classe burguesa e cumprem eficientemente o seu papel em troca de boas remunerações.

Tais escritores, intelectuais orgânicos da classe dominante, têm a função de divulgar os seus princípios no senso comum, ofuscando ainda mais o núcleo de bom senso dos subalternos. Em contrapartida, temos os intelectuais orgânicos das classes subalternas que difundem a concepção do mundo revolucionário entre as massas exploradas e dominadas. Podemos considerar os editores da revista A Vida e os organizadores das escolas racionais como sendo intelectuais orgânicos dos trabalhadores.

A experiência recente da história do Brasil nos mostra o quanto é importante, para o despertar da consciência de classe, a leitura de periódicos progressistas, a luta concreta do dia a dia e a participação em cursos livres patrocinados por entidades ligadas aos trabalhadores. A fornada de líderes ligados aos interesses populares, que década de 80 produziu, reforça estas afirmações. O aparecimento de lideres operários no Brasil, transcendem a visão simplista do senso comum e se transformam em intelectuais orgânicos das classes subalternas, se deu prioritariamente através da luta e da formação intelectual alternativa.

Para E. Lima, um grande atraso para o homem é a lei do hábito. Um ser habituado é ser escravizado. Para o ser humano livrar-se do hábito que corresponde à quietude, ao aniquilamento do libertar-se, é de grande importância a educação racional. O autor rende homenagem à grande referência dos libertários da época, que é Francisco Ferrer y Guardia, e faz uma bonita convocatória aos educadores anarquistas:

"Irmãos nossos, fugi, fugi do hábito, caminhai para a liberdade, para a mutação, para a perfeição inacabável. Jamais até hoje um segundo homem compreendeu melhor do que Ferrer, a necessidade de um ensino racional, novo e que afastando-se do dogmatismo pedagógico presente, ministrasse uma educação realmente impecável, e que evoluisse a par com o desenvolvimento das ciências. Ao mártir excelso coube a gloria de realizar este ideal tão puro, e os homens filantrópicos cumpre o dever de amparar a obra iniciada, consolida-la e multiplica-la infinitamente." (LIMA, idem, p. 7).

Outra interessante reflexão do autor está relacionada à importância da educação e transformação das relações sociais e econômicas para a consolidação de uma sociedade fraterna, igualitária e democrática. Para ele o indivíduo socializado é o resultado de três fatores: a hereditariedade, a educação e o meio.

Nesse sentido, o homem vem ao mundo com predisposições. Estas podem ser transformadas e aperfeiçoadas pela atuação da educação e do meio. E. Lima propõe a proliferação de escolas racionais e no meio social o seu saneamento, que corresponde ao término da opressão e da desigualdade. Ou seja, a realização de uma revolução social de cunho libertário.

O autor, para complementar o raciocínio anterior, escreve as esclarecedoras palavras:

"A energia primordial adquirida por via biológica poderá ser apaziguada ou extinta, por via de adaptações deformantes e posteriores. Portanto um esforço coletivo de todas as pessoas das várias nações das diversa raças terrestres, e tendente a tornar a educação dos novos indivíduos a primeira preocupação da humanidade, colocando-a em nível superior e purificando zelosamente o meio racial, deveria constituir o horizonte para o qual seriam dirigidos os valores máximas das nossos trabalhos " (LIMA, idem, p. 6).

O terceiro artigo, o de Adelino de Pinho, educador que desenvolveu várias iniciativas de criação e manutenção de escolas racionais, reflete sobre importantes aspectos relacionados com o ensino da sua época.

A conjuntura da 1ª Guerra Mundial também marcou as reflexões de Adelino e o título de seu artigo é sintomático A escola, o preludio da caserna. O autor percebe a relação estreita entre a escola primária e a formação das crianças com a preparação e o desenrolar da 1° Guerra Mundial, que tantos prejuízos trouxe para a humanidade.

A escola primária trabalha para a formação e manutenção da ideologia burguesa, que neste período acentua a sua face militarista. Adelino afirma que a escola primária confessional ou governamental tem como objetivo lançar

"mão dos cérebros infantis e modela-los a seu bel prazer, enchendo-os de formulas metafísicas e abarrotando-os de palavrões estragados, como pátria, fronteira, estrangeiro e inimigos, acostumando os ternos infantes a desconfiar dos outros povos e a precaver-se contra eles, o que leva os do país estranho a fazer o mesmo e vice-versa." (PINHO, Adelino de. A Vida, mar. 1915, pp. 75-6).

Este tipo de formação leva à desconfiança entre os povos e às guerras, o que destrói a necessária solidariedade entre os trabalhadores dos vários países. Esta visão belicista é contrária a um dos mais caros princípios do socialismo libertário que é o internacionalismo.

O que Adelino de Pinho constata com tristeza é a eficiência da escola oficial estatal ou confessional. As novas gerações da Europa, saídas destas escolas, assimilaram totalmente a ideologia burguesa e militarista e partiram céleres para a sangrenta 1ª Guerra Mundial.

Como os demais autores libertário, Adelino reflete sobre o papel do Estado na educação. Afirma que a burguesia, percebendo a decadência da influência da Igreja sobre as classes populares e a sua necessidade de mão-de-obra mais qualificada, passa a investir na criação de escolas. O Estado burguês procura investir no ensino com o objetivo de dominação hegemônica e também com o objetivo de dar o mínimo de qualificação para a mão-de-obra proletária, que vai trabalhar nas máquinas e nas indústrias dos capitalistas. Esta necessidade aumenta na proporção em que a sociedade de base industrial se consolida e se espalha pelo mundo.

Portanto para a burguesia, a educação tem um papel instrumental importantíssimo para a sua dominação sobre os trabalhadores. É por isso que "esses agentes governamentais - o.rs professores - que são obrigado a cingir-se ao programa e não ultrapassa-lo , nem quase criticá-lo" (PINHO, idem, p. 76) são selecionados pelo Estado e seguem um programa preestabelecido pelo mesmo. O Estado só deixa ensinar o que lhe é útil para a consolidação de sua hegemonia. Todos os Estados, segundo o autor, ouviram a frase de Leibnitz: "Fazei-me senhor do ensino e eu me encarrego de transformar a face do mundo".

Adelino de Pinho escreve que

"... todo este carinho revelado pelos mandões a respeito da instrução do povo, não é sincero, nem honesto, nem desinteressado, mas somente uma manobra habilíssima para que se apoderem dos filhos dos trabalhadores e prepara-os, como já acontece aos pais, amolgando-lhes os cérebros e deprimindo-lhes o caráter, a serem obedientes, humildes, submissos e respeitadores do status quo, bons manequins, dentro da oficina, quando ha necessidade de produção, e bons manequins, no campo de batalha, guando os stocks de mercadorias abundam nos armazéns e se faz mister conquistar mercados à força de punho, a ferro e fogo, para dar saída aos produtos invendíveis." (PINHO, idem, p. 77).

Para as classes populares coloca-se um clilema: ser carne da oficina ou ser carne de canhão para a burguesia. Dilema que pode ser resolvido com uma terceira alternativa que é a abertura e manutenção de escolas racionais, onde as mentes e os corpos infantis se desenvolvam livres de toda pressão e imposição. O autor compreendendo a importância que as primeiras impressões exercem no ulterior desenvolvimento individual e coletivo das pessoas, propõe como um dos meios mais eficazes para conseguirmos "... um mundo melhor onde todos gozem a alegria de viver, satisfeitos da vida e libertos da fome, da opressão e da ignorância bestial... " (PINHO, idem, ibidem) a generalização de escolas racionais que trabalhem com as crianças desde a mais tenra infância.
Os artigos de José Oiticica saem nos cinco primeiros números da revista mensal A Vida. Eles levam o título de O desperdício da energia feminina. Neles o autor propõe analisar a situação da mulher através da história.
Oiticica desenvolve interessante argumentação sobre a Energética, teoria da energia do Cosmos e do homem. Para ele "as energias humanas são de cinco espécies: físicas, intelectuais, morais, práticas e sociais. " (OITICICA, A Vida, n° 1, nov 1914, p. 6). A sociedade capitalista burguesa do início do século no Brasil e no mundo provocava um grande desperdício de energia humana e acentuadamente da feminina.
Quando o autor analisa o desperdício energia intelectual, refere-se ao ensino e ao papel das mães na educação dos filhos. Para Oiticica, a educação da massa de trabalhadores se dá por funcionários do Estado, por ele chamados de ambíguos, isto é, pessoas que são dirigidas pela classe dominante, mas que ao mesmo tempo dirigem os subalternos.
O objetivo deste ensino é "ministrar aos trabalhadores idéias, ou antes, os preconceitos favoráveis à supremacia dos dirigentes." (OITICICA, idem, ibidem). Para a elite dominante é importante manter grande parte da população analfabeta ou semi-analfabeta. Para Oiticica, "É evidente que essa classe de ignorantes representa uma formidável soma de energia intelectual desperdiçada ". (OITICICA, idem, p.7).
A mulher, neste caso, sofre as piores conseqüências permanecendo, salvo raras excepções, na mais profunda ignorância. As que se revoltam contra o homem e os preconceitos burgueses sofrem tenaz repressão.

Para o autor é lastimável que a mulher não tenha acesso à cultura porque:

"Basta considerar a educação do filho, para medir o alcance da educação intelectual da mulher. Criar um filho, educar um filho é um problema que exige uma instrução vasta e variada. Toda mãe de família deveria ser uma pedagoga; mas pedagogia se baseia na psicologia e na fisiologia, que supõem o preparo em ciências correlatas, digamos melhor em todas a ciências." (OITICICA, idem, ibidem).

O papel da mãe, portanto, é de grande importância na formação intelectual das crianças. O autor demonstra uma ampla visão de educação, não restringindo esta apenas às escolas. As mães ignorantes passam para as crianças a ideologia dominante, contribuindo assim para a manutenção da ordem burguesa.

Oiticica não concebe a educação da juventude apenas sob a responsabilidade e exclusividade da escola. Ele percebe a importante contribuição que a família pode dar na educação dos jovens. É certo que a família atual tem que ser revolucionada e organizada sob uma orientação libertária. A família libertária baseada no amor é assim explicada por Heliodoro Salgado:

"Desde que o homem e a mulher se desejem, se gozem, se estimem, tudo mais resulta como os corolários de uma premissa. O amor implica responsabilidade, o respeito, o cuidado, a solïdariedade plena em todas as alegrias e em todas as dores.

Desde que se torne precisa a intervenção da lei é porque o amor cessou. E desde que o casamento repouse sobre o amor, cessado este, está dissolvido aquele, espontaneamente dissolvido, reassumindo cada qual dos membros do par conjugal a sua inteira liberdade.

Assim comprometida, a união livre não é a anulação da família; é a sua dignificação pelo respeito da liberdade, da personalidade dos esposos (. . .).

(...) O que impede (o amor livre) a sua generalização não é o crédito, das velhas instituições familiares; são as necessidades econômicas dum regime das riquezas fundadas na ´ legitimação dos filhos ´ .

Desde, porém, que o socialismo tenha conseguido minar e derruir as instituições econômicas que herdamos dum passado bárbaro e desumano, essa justificação da família legal terá desaparecido, e a família libertada passará a ter apenas por base , por garantia e por lei, o amor.

Assim, a família não se extinguirá, a não ser que se extinga a própria humanidade; mas depurar-se-á no sentimento e na prática da liberdade. " (Salgado H. apud SOARES, V. Os trabalhadores e a questão da saúde – 1890. 1985, pp. 25-6).

O autor conclui sua argumentação, afirmando a importância da mulher numa futura sociedade acrata e o seu papel na extinção do desperdício da energia intelectual humana:

"ninguém deveria ser mais enciclopédico do que a mãe de família e portanto do que a mulher. Uma sociedade bem constituída seria aquela em que todas as mulheres pudessem ser amplamente instruídas. "
 (OITICICA, A Vida, n° 1, nov, 1914, p. 7).