Chega de pacifismo!

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Colônia Cecília

A Colônia Cecília foi uma comuna experimental baseada em premissas anarquistas. A Colônia foi fundada em 1890, no município de Palmeira, no estado do Paraná, por um grupo de libertários mobilizados pelo jornalista e agrônomo italiano Giovanni Rossi(1859-1943).
A fundação da Colônia Cecília foi a primeira tentativa efetiva de implantação do ideário anarquista no Brasil (1889). Rossi, ideólogo e escritor anarquista, adepto da "acracia"[nota 1], foi instigado pelo músico brasileiro Carlos Gomes a procurar D. Pedro II com o propósito de instaurar uma comunidade capaz de propulsionar um "novo tempo", uma utopia baseada no trabalho, na vida e no amor libertário.[1]
Interessado na colonização do Brasil, D. Pedro II atendeu o pedido e escreveu ao Rossi oferecendo as terras a serem ocupadas pelos italianos (300 alqueires na região meridional brasileira). A doação, de fato, não aconteceu: logo depois da oferta pelo Imperador foi instaurada a República brasileira, que não reconheceu concessões de terras outorgadas pelo império deposto a estrangeiros. Rossi não desistiu. Comprou as terras por meio da "Inspetoria de Terras e Colonização".[1]
O Brasil recebeu uma grande quantidade de imigrantes, principalmente italianos, no final do século XIX. Se na Itália a condição de vida no campo fundamentou a emigração, aqui, tanto nas fazendas de café como nos núcleos coloniais a realidade não era muito diferente, e era distante de um processo de caráter inovador: o imigrante se inseria no Brasil como proletário em potencial. Foi nesse meio social que o anarquismo se propagou no Brasil.[2] [nota 2]

A vida na Colônia

Os primeiros colonos chegaram em 1890 e construíram um barracão coletivo que instalava, provisoriamente, as famílias para, em seguida, cada uma tratar de construir a sua própria casa. Nessa época, o contingente populacional na Colônia Cecília era de quase trezentas pessoas, inclusive o próprio Rossi. Ao final de 1891, a explosão populacional superava a estrutura disponível: 20 casas de madeira e um barracão comunitário. A lavoura, a pecuária não produziam o suficiente para a subsistência dos colonos, grande parte de origem operária e sem conhecimentos agrícolas para implementar uma produção em maior escala. [nota 3]
O primeiro obstáculo enfrentado pelo núcleo anarquista foi o modo de organizar o trabalho. Aos artesãos, foram designadas tarefas semelhantes às que já realizavam. Mas quanto aos lavradores, Giovanni Rossi já pressentira que encontrariam dificuldades em razão da diferença entre o solo brasileiro e o italiano.
Ao concluírem a construção das habitações coletivas e individuais e dividirem racionalmente o trabalho entre os 150 colonos, eles se depararam com um fato real: o milho, que era ideal para aquela região, não nasce do dia para a noite. Com o dinheiro que trouxeram conseguiram subsistir, comprar mantimentos, instrumentos para a lavoura e sementes. Contudo, viram-se obrigados a procurar por outras atividades para delas tirar seu sustento até que pudessem viver tão somente de sua lavoura. Alguns se ocupavam da plantação enquanto outros trabalhavam em obras do governo.
Os colonos plantaram mais de oitenta alqueires de terra - em área que lhes fora cedida pelo Imperador Pedro II, pouco antes da proclamação da República - e construíram mais de dez quilômetros de estrada, numa época na qual inexistiam máquinas, tratores ou guindastes de transporte de terras.
Foram edificados o barracão coletivo, vinte barracões individuais, celeiros, a casa da escola, moinho de fubá, tanque de peixes, o pavilhão coletivo - que também abrigava o consultório médico - viveirode mudas, poços, valos, pomar de peras, estábulos, além da grande lavoura de milho.
Nos quatro anos de existência da colônia (1890-1894), sua população chegou a atingir cerca de 250 pessoas. Realizaram-se duas relações do tipo poligâmico. O próprio Rossi se propôs como exemplo concreto do novo estilo de vida, compartilhando com outro homem a sua ligação amorosa com uma moça da colônia.
Em 1892, aconteceu o primeiro revés na Colônia: sete famílias decidiram pelo regresso à Itália - a primeira desagregação que, seguida de outras, reduziu a Colônia a apenas vinte pessoas até o final desse mesmo ano. Os colonos iniciaram a migração para Curitiba: eram médicos, engenheiros, professores, intelectuais e operários, além de camponeses na Itália. Esse grupo fundou na capital paranaense a Sociedade Giuseppe Garibaldi.
No ano seguinte (1892), a Colônia recebe novo alento com a chegada de novos colonos. Nesse período (apogeu de sua breve história), teve início a vitivinicultura e a fabricação de sapatos e barricas. Ao final desse ano, a Colônia contava com sessenta e quatro pessoas, dois poços artesianos e uma estrada de acesso. Foi também nesse período que os sapateiros oriundos da Colônia exerceram papel de destaque no movimento operário do Estado.

O fim da colónia

O experimento da Colônia Cecília terminou por vários motivos. O principal foi a pobreza material, chegando mesmo a condições de miséria. Em segundo lugar, a hostilidade da vizinha comunidadepolonesa, fortemente católica. O próprio clero e as autoridades locais promoveram o ostracismo dos anarquistas. Enfim, havia as doenças, ligadas à desnutrição à falta de condições de saneamento adequadas e os problemas internos ligados às dificuldades de adaptação ao estilo de convivência anarquista, particularmente no tocante ao amor livre, que, embora teoricamente fosse aprovado por todos, na prática, despertava temores, especialmente entre as camponesas.
A Colônia Cecília, desde o final de 1893, entretanto, dá sinais de esgotamento: havia grande demanda por mão-de-obra nas cidades vizinhas, especialmente Palmeiras, Porto Amazonas, Ponta Grossa, além da capital. Mesmo assim, outras famílias continuaram chegando à Colônia, atraídas pela propaganda difundida pela imprensa socialista europeia que, entretanto, não foi suficiente para a sua manutenção. A Colônia Cecília se extinguiu em 1894

domingo, 22 de janeiro de 2012

Burgueses, anarquistas, socialistas e o Estado

]O que é o Estado?
Não estou interessado em discutir com os teóricos do direito para que serve o Estado, pelo menos não no sentido de pensar em “para que o Estado DEVERIA servir?”, prefiro tirar a discussão da metafísica – ou “dever ser” para os “direitistas” (com o perdão do trocadilho) – e trazer para a imanência.

Assim sendo, não importa, para mim, pensar o elaborar de um projeto de Estado que diz como ele deve agir, pois eu correria o risco de ignorar todo o fim da história e tentar fazer o Estado cumprir uma função que não pode. Nesse sentido, exigir que o Estado busque o “bem comum” e funcione como um “pára-choques” na medida em que faz a mediação dos conflitos entre as pessoas de forma totalmente imparcial – ou equilibrando as “parcialidades sociais” – é algo “belo”, porém infecundo, o Estado nunca fez e nunca fará isso.

Antes de prosseguir nesta discussão, devemos nos perguntar uma coisa muito importante, que os teóricos do direito sempre deixam escapar ou respondem metafisicamente (aliás, o direito é uma “ciência metafísica”), ou seja, desconsiderando a historicidade. E a pergunta é precisamente esta: “do que o estado é composto?”. O Estado é um corpo instituicional-burocrático que compreende um poder subdividido em três funções, que se articulam ora harmônica, ora desarmonicamente (dependendo dos interesses das pessoas que os desempenham) – muitas vezes há também desarmonia dentro das próprias funções (dependendo dos interesses). Essas três funções são: o judiciário, o executivo e o legislativo. Podemos dizer que o judiciário é composto pelos juízes, desembargadores e ministros (de varas, tribunal de justiça e tribunais superiores, respectivamente); e o legislativo é composto pelas casas legislativas: câmaras de vereadores, assembléia legislativa, senado federal e câmara dos deputados (estas duas últimas, juntas, formam o congresso nacional).

A função executivo é o mais abrangente e disperso das três, enfim, o mais impreciso de todos. Não obstante as outras funções algumas vezes agirem como a executiva (e vice-versa), somente o executivo é ambíguo por si só, difícil de ser definido. O presidente, os ministros, os governadores, prefeitos e os secretários (dos estados e municípios) formam o executivo, mas não são somente eles. Todos os funcionários públicos desempenham alguma função executiva. O poder executivo é burocrático por natureza, por isso, muitas vezes, uma funcionária desconhecida pode se tornar mais importante que o presidente da república no caso concreto, tal é o grau de imanência deste poder. E esta é a grande diferença entre legislativo e judiciário para o executivo, diferença de natureza: enquanto os dois primeiros são sumamente metafísicos, posto que lidam com o “descer ser” abstrato que nunca se concretiza mas é sempre por eles perseguido, o executivo lida com os fatos concretos, é totalmente imanentista e tem, inclusive, legitimidade para burlar a lei em certos casos (em outros burla sem ter e é perfeitamente compreendido pelas outras funções em que se divide o poder do Estado). Os autores do direito também dizem que o estado é o povo e o território. Concordo que seja o território, pois sem um espaço físico nenhum Estado existe, mas discordo que seja o povo. Mesmo no tresloucado “dever ser direitista” o Estado é o povo, ele pode ser ocupado por pessoas do povo, pode até ter em suas práticas reflexos das práticas populares, mas ainda não é o povo em sua inteireza e complexidade. O Estado não é o povo da mesma forma que uma empresa não é o povo. O Estado, portanto, é uma empresa que tem uma série de privilégios garantidos não pelo “contrato social” baseado no “bom selvagem” do “Estado de natureza” (que nunca existiu de fato como teorizado pelos contratualistas), mas, de outra maneira, pelo monopólio da força que é sinônimo de Estado, mais ainda, da FUNÇÃO EXECUTIVA.

Depois de responder esta pergunta podemos perseguir o raciocínio sobre a investigação “o que é o Estado?”. Em linhas gerais, podemos dizer que o Estado não é nada mais, nada menos do que o comitê gestor dos interesses de uma pequena parte do povo, que ocupa o aparelho de Estado (ou a máquina de Estado, como queira) para se beneficiar – ainda que não o faça diretamente. Por isso mesmo, até hoje e para sempre, todo aparelho de Estado irá funcionar à base do desrespeito aos direitos individuais (que são fundados e postos na maior parte das vezes pelas próprias cartas constitucionais dos Estados) do povo, ou da parcela do povo que não ocupa o aparelho repressor do Estado. Este Estado é uma regra, sem exceção (pelo menos até os dias atuais) e até mesmo o Estado socialista praticado em Cuba ou na URSS seguiu este modelo. Todo Estado segue este modelo (com pequenas nuances no que diz respeito à estrutura, embora a centralidade do poder executivo e a função cumprida por ele mude pouco, quase nada).

]A superação do Estado
Se o Estado é sempre um instrumento de poder que, por meio de vários artifícios – em última instância do MONOPÓLIO DA FORÇA COATIVA –, visa garantir as sobreposição de uma parte do povo sobre outra, devemos, portanto, querer a superação do Estado para que nossas vidas, possam, então, não viver mais sob esta eterna coação. A burguesia percebeu isto quando começou a se formar. Havia, na época, o Estado total, monárquico, onde o rei e o Estado eram uma só e mesma coisa, tudo estava submetido ao seu poder, às suas vontades, à sua figura, o rei era como o sol e, em torno dele, girava o resto da sociedade, como os planetas em torno do sol (este tipo de Estado ganhou o ápice com Luiz XIV, rei da França). Não que o rei impedisse o progresso do capitalismo (modelo econômico que os burgueses tentavam implementar), mas, certamente, aquele tipo de Estado sufocava e atrapalhava o seu desenvolvimento.

Portanto, foi importante, para os burgueses, não acabar com o Estado, mas adentrar a seu aparelho de poder, foi assim na Inglaterra com a revolução gloriosa e, posteriormente, com a monarquia constitucional parlamentarista, onde a figura do rei já não era mais suprema, posto que havia a figura do primeiro ministro, tirando do rei a função de chefe de governo, ou seja, do executivo, deixando o rei como uma mera figura representativa, tendo somente a função de chefe de Estado (que é muito mais simbólica e diplomática do que concreta). A burguesia não questionava, portanto, o Estado e a violação das liberdades individuais, apenas queria se livrar de ser um mero sustentáculo do Estado Absoluto e passar a ser gestora do poder opressor exercido pelo Estado. Foi assim na Inglaterra e na França com suas revoluções, que não fora simplesmente um momento estaque (diga-se de passagem) com a saída do rei do “centro das atenções”, mas um processo lento que perdurou entre os séculos 18 e 19 por toda Europa. Naturalmente tal processo contou com avanços e retrocessos, até chegar aos tempos atuais, em que a burguesia conseguiu formatar um tipo de Estado (chamado pelos “direitistas” de “Estado democrático de direito”) capaz de atender totalmente a seus interesses com o chamado “modelo político-representativo”. Neste meio tempo também os comunistas se deram conta da forma naturalmente opressora do Estado. Mas temos dois grandes “tipos “ de comunistas: os socialistas e os anarquistas.

]Os socialistas e o Estado
A relação que os socialistas matêm com o Estado é um tanto complicada, pois, como herdeiros de Marx eles são, também e ao mesmo tempo, herdeiros da dialética hegeliana, por mais que imputem a Hegel um caráter metafísico e a eles mesmos um caráter “histórico-dialético”). Dessa forma, o sr. Marx não é favorável à simples implosão do Estado, mas à formatação de um “Estado de transição” capaz de, dialeticamente, resolver as “desigualdades” postas para, só então, se auto-destruir.
O problema é que o sr. Marx “não conhece” a natureza humana (ou finge não conhecer). Sua descrição do capitalismo é muito boa, talvez a melhor já feita até hoje, a teoria do fetichismo da mercadoria exposta no primeiro livro da obra “O capital” é sem dúvidas fantástica, mas seu projeto para uma superação do capitalismo, para a concretização de tal superação é ainda muito metafísico, pois ele ainda aceita de alguma forma a idéia de Estado, ou seja, um Estado ideal por que os socialistas devem putar. Dessa forma, mal ou bem, o alvo dos socialistas-marxistas é o Estado, mais do que isso, é ocupar o Estado, o aparelho de Estado, de forma que ao percorrer esta movimento até os acentos do Estado não seja destruída toda a estrutura opressora. Como diz Foucault num artigo chamado “Poder-corpo” do livro “microfísica do Poder”: “Para poder lutar contra um Estado que não é apenas um governo, é preciso que o movimento revolucionário se atribua o equivalente em termos de forças político−militares, que ele se constitua, portanto, como partido, organizado – interiormente − como um aparelho de Estado, com os mesmos mecanismos de disciplina, as mesmas hierarquias, a mesma organização de poderes. Esta conseqüência é grave. Em segundo lugar, a tomada do aparelho de Estado − esta foi uma grande discussão no interior do próprio marxismo − deve ser considerada como uma simples ocupação com modificações eventuais ou deve ser a ocasião de sua destruição? Você sabe como finalmente se resolveu este problema: é preciso minar o aparelho, mas não completamente, já que quando a ditadura do proletariado se estabelecer, a luta de classes não estará, por conseguinte, terminada... E preciso, portanto, que o aparelho de Estado esteja suficientemente intacto para que se possa utilizá−lo contra os inimigos de classe. Chegamos à segunda conseqüência: o aparelho de Estado deve ser mantido, pelo menos até um certo ponto, durante a ditadura do proletariado.

Finalmente, terceira conseqüência: para fazer funcionar estes aparelhos de Estado que serão ocupados mas não destruídos, convém apelar para os técnicos e os especialistas. E, para isto, utiliza−se a antiga classe familiarizada com o aparelho, isto é, a burguesia.” (Foucault, Michel, “Microfísica do poder, p. 85). Foucault esclarece bem o que se passa no movimento que “herda” o pensamento de Marx. A ingenuidade e o viés perigoso deste aparelho de Estado é que ele simplesmente funciona da mesma forma que o burguês, a única mudança é no conteúdo: quem o “comanda” são os operários (operários estes que, como disse sabiamente o grande anarquista Bakunin:
 "ASSIM, SOB QUALQUER ÂNGULO QUE SE ESTEJA SITUADO PARA CONSIDERAR ESTA QUESTÃO, CHEGA-SE AO MESMO RESULTADO EXECRÁVEL: O GOVERNO DA IMENSA MAIORIA DAS MASSAS POPULARES SE FAZ POR UMA MINORIA PRIVILEGIADA. ESTA MINORIA, PORÉM, DIZEM OS MARXISTAS, COMPOR-SE-Á DE OPERÁRIOS. SIM, COM CERTEZA, DE ANTIGOS OPERÁRIOS, MAS QUE, TÃO LOGO SE TORNEM GOVERNANTES OU REPRESENTANTES DO POVO, CESSARÃO DE SER OPERÁRIOS E PÔR-SE-ÃO A OBSERVAR O MUNDO PROLETÁRIO DE CIMA DO ESTADO; NÃO MAIS REPRESENTARÃO O POVO, MAS A SI MESMOS E SUAS PRETENSÕES DE GOVERNÁ-LO. QUEM DUVIDA DISSO, NÃO CONHECE A NATUREZA HUMANA."), ou de antigos operários agora travestidos de burocratas. Este Estado, não no ideal previsto teoricamente em livros e discursos, mas na prática história se mostrou duplamente falho: tanto no viés econômico (pois foi um fracasso do ponto de vista de prover seu povo com um mínimo de recursos para que não passassem por privações ultrajantes); bem como no viés teleológico, ou seja, no seu objetivo de se auto-destruir tão logo as “desigualdades” fossem superadas dialeticamente através da história, o Estado socialista falha ante a seu objetivo e não poderia ser diferente, posto que todo estado tem como caráter central a manutenção das estruturas sociais vigentes.

Mais ainda, tal Estado não consegue sequer superar o capitalismo, pois manteve o tripé que o sustenta: trabalho alienado (trabalho que produz mais-valia); propriedade privada (posto que o Estado é DONO dos meios de produção, dessa forma o Estado é o único burguês, muito embora o Estado não seja uma pessoa que tem vontades ele próprio, o Estado é controlado por pessoas, dessa forma, na prática, os burguesas são não os donos dos meios de produção, mas os controladores dos meios de produção – na prática isso não faz diferença); capital (muito mais como consequência das outras duas pilastras: se há propriedade dos meios de produção, há trabalho alienado – já que o homem não se apropria de seu trabalho; e, se há trabalho alienado, há capital, posto que existe uma retroalimentação automática do trabalho que acontece fora do controle do próprio homem, a mercadoria ganha, ou continua tendo, o valor de fetiche). E é por isso que tal Estado é mais perigoso que o Estado burguês, embora de toda forma, os 2 sejam INDESEJÁVEIS, já que suprimem os direitos individuais. O modelo de transição pensado por Marx, portanto, é institucional, mas as instituições estão submetidas às vontades de quem as controla e não ao contrário.
Os anarquistas e o Estado
Os anarquistas percebem que todo Estado (por mais “bem intencionado” que sejam seus controladores) é violador dos direitos individuais. Ora, sendo assim é preciso negar qualquer forma de Estado ou de organização que o valha. Não têm, portanto, a ingenuidade institucional dos marxistas. Os anarquistas, portanto, não reconhecem a legitimidade de qualquer ordem institucional que se arroube ao direito de controlar a vida e a forma de organização das pessoas. Assim, para os anarquistas, entre o Estado e o comunismo, não há uma fase de transição. Falando de forma filosófica: negam a herança histórico-dialética de Hegel (ainda que transmutada para uma forma imanentista).

]O comunismo se conquista sem transição alguma na anarquia?
Por último temos que tornar claro um pensamento que, à primeira vista faz sentido, mas, com um pouco de perspicácia, cairá por terra. Muitos devem perguntar se a conquista de uma sociedade sem Estado para os anarquistas se dará sem transição alguma. Eu diria que não e sim, ao mesmo tempo, pois, na verdade, não há uma transição instituída, de fato, um período de transição bem compreendido e delimitado: “hoje começa o período de transição e dia tal do mês tal do ano tal” termina. Não. Pois os anarquistas, mas do que negar o Estado e reconhecerem como ilegítima sua existência, visam primeiro a afirmação do comunismo (sociedade auto-gerida e, portanto, sem Estado ou qualquer instância que “faça vez” de Estado) e, só depois momento, negam a existência daquilo que atrapalha o que visam, o que afirmam. Daí posso perceber duas coisas: a luta anárquica, formalmente falando, se parece mais com a luta burguesa que com a luta dos marxistas, ou seja, os anarquistas (assim como os burgueses) são movidos por um profundo primeiro sentimento de AFIRMAR o que querem, negam o que atrapalha sua inicial afirmação. Em outras palavras: os anarquistas não são revolucionários ressentidos. Este é o argumento que pode confirmar a não transição. A segunda coisa, como eu disse, é a investigação que tenta vislumbrar outro momento no horizonte de compreensão. Sem desprezar o outro momento, mais difícil de ser percebido, pois nos é muito mais próximo, está na superfície, e não temos o costume de atentar para os detalhes, para os ruídos que vem da superfície. A transição não se dá fora do Estado, mas dentro dele, pois os anarquistas, para superar o Estado, não precisam de um documento que diz “ESTÁ VINDO O ESTADO FULANO DE TAL”, eles simplesmente podem agir como se tal Estado não existisse, como se seu poder não lhes importasse e só “batem de frente” no momento em que tal Estado perturbar suas vidas.

O problema é que, para tal coisa se por em prática, precisamos de um grande número de anarquistas, de pessoas que realmente queiram ser livres e que, para tanto, não coloquem, à frente da liberdade, a segurança que o Estado (burguês ou proletário) as dá em troca da liberdade, dos direitos individuais por ele violado. A transição anárquica é micro-política, está, portanto, na prática diária e individual das pessoas e não no alto das instituições.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A sociedade anarquista

Educação avançada: a base da coexistência harmoniosa

A questão persecutória por excelência entre os anarquistas no decorrer da história é: como seria possível uma Sociedade Anarquista se cada ser humano pensa de uma forma diferente[carece de fontes]? Não seria permeada por inúmeros conflitos, guerras, antagonismos?
A resposta a essa questão, defendida pela maior parte dos anarquistas[carece de fontes], é a de que apenas o desenvolvimento virtuoso da educação (Pedagogia Libertária) – permeada pela autodidática, interesse natural, relativismo cultural e antidogmatismo – proveria as pessoas do desenvolvimento humano efetivo. Assim, embora os conflitos façam parte da Sociedade Anarquista – e a desenvolvam estruturalmente por essa relação dialética –, eles seriam transferidos do plano físico – como é o caso das guerras atuais – para o plano do diálogo – como prima a democracia direta –, sendo negociados de forma pacífica, consciente, racional e, acima de tudo, humana, já que o interesse, o calculismo, não estaria mais regendo as instâncias conflitivas. Em outras palavras, independentemente do resultado do embate, ninguém sairia em posição privilegiada[carece de fontes].
Evidentemente, no caso de uma sociedade anarquista, também pode haver indivíduos que perturbem a harmonia social. Como a violência é uma forma pura de autoridade, de poder, o indivíduo que encarná-la em qualquer uma de suas ações, por qualquer que seja o motivo, não será considerado anarquista[carece de fontes]. Como a Sociedade Anarquista é uma sociedade de anarquistas e para anarquistas, os dissidentes seriam obrigados a garantir a sua subsistência onde a autoridade e a mesquinhez deles tivesse alguma funcionalidade[carece de fontes].
Piotr Alexeevich kropotkin (1842 – 1921) defende que a Liberdade, em seu estado puro, em conjunto com a fraternidade, serviria como um verdadeiro "remédio" às pessoas, sanando os seus problemas mais nefastos, conseqüentemente, prescindindo-se de qualquer espécie de punição ou coerção. Esta ideia se aplica, num espectro mais amplo, até às questões relacionadas à existência de estruturas manicomiais, responsáveis, na sociedade capitalista, pelas torturas e maus-tratos aos estigmatizados pelo sistema como "doentes mentais".

Princípio da flexibilidade e naturalidade organizacionais

s anarquistas, por intermédio da aceitação e compreensão da progressão materialmente dialética da história, em sua maioria, não acreditam que o estabelecimento de estruturas organizacionais rígidas possam promover um desenvolvimento humano efetivo. Assim, acreditam que a inflexibilidade organizacional - típica do sistema capitalista - termina por interferir deleteriamente, quando não suprimir, as faculdades individuais de cada ser humano. Por isso, os anarquistas acreditam que são as dificuldades e problemáticas humanas, materiais e sociais que devem prescrever o modelo temporário de organização, e não as inferências provenientes de abstrações técnicas. Em outras palavras, é a realidade concreta que deve definir as bases da organização da sociedade anarquista, em contrapartida com as situações imaginárias criadas pelos "técnicos", as quais, na maioria das vezes, tendem a ser manipuladas a favor de interesses parciais.
Com o objetivo de se potencializar de forma plena a coesão estrutural - material - necessária à Sociedade Anarquista, a fim de se promover a satisfação das necessidades humanitárias, houve a emergência do conceito de Federalismo Libertário.

[Federalismo Libertário

Sendo uma ampliação funcional do princípio da "Ação Direta", o federalismo libertário é o meio de organização proposto pela maior parte das vertentes anárquicas[carece de fontes], desenvolvido, no âmbito anarquista, pela primeira pessoa a se intitular “anarquista”: Pierre-Joseph Proudhon (1809 - 1865). Esse conceito consiste na subdivisão organizacional temporária ou permanente da sociedade libertária – em federações, comunas, confederações, associações, cooperativas, grupos e qualquer outra forma de conjugação da força operacional humana – para a maior eficiência das interações humanas, sociais. Por intermédio do federalismo, de cunho libertário, seria possível uma intervenção rápida e direta do homem frente às problemáticas emergentes na sociedade anarquista. Nesse aspecto, Piotr Alexeevich Kropotkin (1842  1921) aludia didaticamente às federações como sendo "botes salva-vidas": ágeis no auxílio e versáteis frente às condições ou necessidades adversas[carece de fontes].
Evidencia-se que o conceito de federalismo, no campo libertário, transcende o conceito atual de federalismo que conhecemos, deixando de representar apenas as associações de grande escala para adentrar no âmbito pessoal, abrangendo, inclusive, as relações interpessoais. Desta forma, o federalismo libertário se firma enquanto a máxima coesão entre o homem e a satisfação proficiente de suas necessidades[carece de fontes].
O federalismo libertário se difere do federalismo estatal - como o que vigora no Brasil - por não ser concebido em meio a nenhuma relação de submissão e por ser regido, em sua completude, pelas necessidades humanas. Seriam sempre as problemáticas que definiriam e prescreveriam a organização, e não os interesses, sejam eles coletivos ou pessoais.
Com efeito, vários anarquistas já propuseram modelos mais elaborados de organização, de plataformas organizacionais, mas, como é a conjuntura e a naturalidade que devem definir a organização numa sociedade anarquista, elas são consideradas inferências, projetos divergentes, porém, todos unificados pelo conceito uno do federalismo libertário. Em outras palavras, o federalismo libertário é tido enquanto o germe de qualquer organização anarquista.

Responsabilidades: individual e coletiva

 

Na sociedade anarquista, a questão da responsabilidade é persecutória em qualquer pensamento acerca das relações entre os seus integrantes. Didaticamente, ela é dividida entre responsabilidade individual e responsabilidade coletiva - ambas totalmente coesas na prática.
Pela primeira, compreende-se a consciência individual encarnada em qualquer ação empreendida pelo indivíduo, de forma pessoal, subjetiva - embora com vistas ao benefício do coletivo. Assim, o anarquista possui seus deveres e obrigações em relação a toda a sociedade, agindo sempre de forma a progredi-la por completo.
Pela segunda, é convencionada a consciência coletiva emergente a partir de qualquer ação exercida por determinada seção operacional - grupo, associação, federação, etc. Uma determinada seção é responsável - em sua integridade - pelas suas ações desenvolvidas, estando suscetível aos seus resultados e, conseqüentemente, às possíveis reformulações ou reorientações.

Movimento social

O anarquismo como movimento social tem regularmente sofrido variações na sua popularidade. O seu período clássico, demarcado por estudiosos como sendo de 1860 a 1939, é associado com os movimentos do proletariado do século XIX e a era da Guerra Civil Espanhola com lutas contra o fascismo.[19]

]A Primeira Internacional

Na Europa, uma severa reação seguiu a revolução de 1848, durante a qual dez países tinham experimentado convulsões sociais breves ou longas assim como grupos defendendo elevações nacionalistas. Depois de a maioria dessas tentativas sistematicamente acabar em fracasso, elementos conservadores tiraram vantagem de grupos divididos de socialistas, anarquistas, liberais e nacionalistas, para impedir mais revoltas.[20] Em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores (algumas vezes chamada de "Primeira Internacional") uniu diversas correntes revolucionárias, como seguidores franceses deProudhon,[21], blanquistas, filadélfios, sindicalistas ingleses, socialistas e sociais democratas.
Devido às suas ligações com movimentos ativos de trabalhadores, a Internacional tornou-se uma organização significativa. Karl Marx tornou-se uma figura importante na Internacional e membro do seu conselho geral. Seguidores de Proudhon, os mutualistas, opunham-se ao socialismo estatal de Marx, advogando o abstencionismo político e o arrendamento de pequenas propriedades.[22][23]
Em 1868, seguindo a sua mal-sucedida participação na Liga da Paz e Liberdade, o revolucionário russo Mikhail Bakunin e as suas associações anarquistas coletivistas juntaram-se à Primeira Internacional (que tinha decidido não se envolver com a Liga da Paz e Liberdade).[24] Eles aliaram-se com as seções socialistas federalistas da Internacional,[25] que advogavam o fim do estado através da revolução e a coletivização da propriedade.
Primeiramente, os coletivistas trabalharam com os marxistas para empurrar a Primeira Internacional para uma direção mais socialista revolucionária. Subsequentemente, a Internacional tornou-se polarizada dentro de dois campos, com Marx e Bakunin como suas lideranças respectivamente.[26] Bakunin caracterizou as ideias de Marx como centralistas e previu que, se o partido marxista fosse ao poder, os seus líderes iriam simplesmente tomar o lugar daclasse dominante contra a qual tinham lutado.[27][28]
Em 1872, o conflito atingiu seu clímax com uma separação final entre dois grupos no Congresso de Haia, no qual Bakunin e James Guillaume foram expulsos da Internacional e as suas sedes transferiram-se para Nova Iorque. Em resposta, as partes federalistas formaram a sua própria Internacional noCongresso de St. Imier, adotando um programa anarquista revolucionário.[29]

]Trabalho organizado

 

As partes antiautoritárias da Primeira Internacional foram as precursoras dos anarcossindicalistas, procurando "substituir o privilégio e a autoridade do Estado" com "livre e espontânea organização do trabalho".[30] Em 1886, a Federação de Sindicatos Organizados dos Estados Unidos e do Canadá decidiram por unanimidade que 1 de maio de 1886 seria a data em que a jornada de oito horas se tornaria padrão.[31]
Em resposta, sindicatos pelos EUA prepararam uma greve geral para apoiar o evento.[31] Em 3 de maio, em Chicago, uma briga iniciou-se quando fura-greves tentaram cruzar a linha dos piquetes, e dois trabalhadores morreram quando a polícia abriu fogo contra a multidão.[32] No dia seguinte, 4 de maio, os anarquistas organizaram um comício na Haymarket Square de Chicago.[33] Uma bomba foi jogada por um desconhecido perto da conclusão do comício, matando um oficial.[34] No pânico subsequente, a polícia abriu fogo contra a multidão e foi respondida.[35] Sete policiais e ao menos quatro trabalhadores foram mortos.[36] Oito anarquistas direta e indiretamente relacionados aos organizadores do comício foram presos e acusados do assassinato dos policiais. Eles tornaram-se celebridades políticas internacionais entre a esquerda. Quatro deles foram executados e um quinto cometeu suicídio antes da sua execução. O incidente tornou-se conhecido como a Revolta de Haymarket, e foi um revés para o movimento e para a luta pela jornada de oito horas. Em 1890, uma segunda tentativa, desta vez internacional em extensão, para mobilização pela jornada de oito horas, foi feita. O evento também tinha o objetivo secundário de lembrar trabalhadores assassinados na Revolta de Haymarket.[37] Apesar de ter sido inicialmente concebida como um evento isolado, no ano seguinte a celebração do Dia do Trabalhador tinha se tornado como um feriado do trabalhador internacionalmente estabelecido.[31]
Em 1907, o Congresso Internacional Anarquista de Amsterdã reuniu delegados de quatorze países diferentes, entre os quais importantes figuras do movimento anarquista, como Errico Malatesta,Pierre Monatte, Luigi Fabbri, Benoît Broutchoux, Emma Goldman, Rudolf Rocker, e Christiaan Cornelissen. Vários temas foram tratados durante o Congresso, em particular concernando a mobilização do movimento anarquista, publicações de educação popular, a greve geral ou o antimilitarismo. Um debate central concernou a relação entre o anarquismo e o sindicalismo. Malatesta e Monatte discordaram particularmente sobre o assunto, já que o segundo pensava que o sindicalismo era revolucionário e criaria condições para uma revolução social, enquanto Malatesta não considerava o sindicalismo por si só suficiente.[38] Ele pensava que o movimento sindical era reformista e até mesmo conservador, citando como essencialmente burgueses e antitrabalhadores os dirigentes sindicais. Malatesta alertou que o objetivo dos sindicalistas eram perpetuar o sindicalismo, enquanto os anarquistas deviam sempre ter a anarquia como o seu fim e, consequentemente, abster-se de se comprometer com qualquer método particular de alcançá-la.[39]
A Federação Espanhola dos Trabalhadores em 1881 era o primeiro grande movimento anarcossindicalista; as federações sindicais eram de especial importância na Espanha. A mais bem-sucedida era a Confederación Nacional del Trabajo (Conferação Nacional do Trabalho: CNT), fundada em 1910. Antes dos anos 1940, a CNT era a maior força na política do proletariado espanhol, atraindo 1,58 milhão de membros em certo ponto e tendo um papel significativo na Guerra Civil Espanhola.[40] A CNT era afiliada à Associação Internacional dos Trabalhadores, uma federação de sindicatos anarcossindicalistas fundada em 1922, com delegados representando dois milhões de trabalhadores de quinze países da Europa e da América Latina. O maior movimento anarquista organizado hoje está na Espanha, na forma da Confederación General del Trabajo (CGT) e da CNT. Os membros da CNT eram estimados em cerca de 100.000 em 2003.[41] Outros movimentos sindicalistas ativos são a Workers Solidarity Alliance (Aliança Solidária dos Trabalhadores, dos EUA) e a Solidarity Federation (Federação Solidária, do Reino Unido). O sindicato industrial revolucionário Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo), com 2 mil membros pagantes, e a International Workers Association (Associação Internacional dos Trabalhadores), uma sucessora anarcossindicalista do Primeira Internacional, também continuam ativas.

Propaganda pelo ato

Alguns anarquistas, como Johann Most, defenderam a divulgação de atos violentos de retaliação contra contrarrevolucionários porque "nós proclamamos não apenas ação em e para si mesma, mas também ação como propaganda."[42] Por volta dos anos 1880, a frase "propaganda pelo ato" tinha começado e ser utilizada tanto dentro quanto fora do movimento anarquista para se referir a bombardeios individuais, regicídios e tiranicídios. Entretanto, em 1887, figuras importantes no movimento anarquista distanciaram-se de tais atos individuais. Peter Kropotkin assim escreveu naquele ano em Le Révolté que "uma estrutura baseada em séculos de história não pode ser destruída com alguns quilos de dinamite".[43] Uma variedade de anarquistas advogou o abandono desse tipo de táticas em favor de uma ação coletiva revolucionária, por exemplo através do movimento sindical. O anarcossindicalista Fernand Pelloutierargumentou em 1895 pelo envolvimento de renomados anarquistas no movimento trabalhista, baseando-se em que o anarquista não poderia ir bem sem "o dinamitador individual."[44]
A repressão do Estado (incluindo as lois scélérates francesas de 1894) para movimentos anarquistas e trabalhistas seguindo os poucos bem-sucedidos bombardeios e assassinatos poderiam ter contribuído para o abandono desse tipo de táticas, apesar de, reciprocamente, a repressão do estado, em primeiro lugar, ter possivelmente contribuído para esses atos isolados. A separação do movimento socialista em muitos grupos e, seguindo a supressão da Comuna de Paris em 1871, a execução e exílio de muitos communards para colônias penais, favoreceram expressões e atos políticos individuais.